terça-feira, 12 de março de 2019

Livros / Há mais mundo para além do ecrã do telemóvel ou tablet

 
 

Durante a semana de 11 a 15 de março, as escolas, sob o lema "Hoje leitor, amanhã leitor",  encontram-se a desenvolver atividades que festejem a leitura como ato comunicativo, de liberdade e responsabilidade, um diálogo entre a literatura, a arte e a ciência, um espaço de encontro, criativo e colaborativo. 
Para além de te recomendarmos a leitura do primeiro livro da coleção "Alerta Premika! Risco online detetado", apresentamos-te  100 Atividades sem Ecrã para Te Divertires da autoria de Kris Hirschmann/Elsa Paganelli, Texto Editores. 
 
Quem não gosta de ver as séries favoritas na televisão, acompanhar o Youtuber favorito, enviar mensagens aos amigos ou seguir as publicações no Instagram de uma qualquer celebridade?
Mas a verdade é que, por muito atrativas que sejam as tecnologias (e não há dúvida que o são!), há todo um mundo que não cabe nos ecrãs. Um mundo real em que podemos interagir de facto com os outros, em vez de nos fecharmos em nós mesmos com a ilusão de que estamos em contacto com todos. Além disso, os jogos têm a vantagem de favorecerem a criatividade, ao mesmo tempo que estimulam tanto o nosso físico como o intelecto.
Nesta centena de atividades que dispensam os aparelhos tecnológicos encontramos de tudo um pouco: como aprender a fazer torradas coloridas ou espetadas de chocolate e marshmallow, procurar tesouros escondidos no quintal, fazer uma pinhata de balões de água ou até construir uma pista de obstáculos. Para fazer tudo isso basta largar o telemóvel por umas horas… (Sérgio Almeida, JN)

Internet sabe quem somos. E nós sabemos que ela sabe


Reuters/PAWEL KOPCZYNSKI


“Sim, se precisares de informação sobre alguém de Harvard... é só pedires. Tenho mais de quatro mil emails, fotografias, moradas, números de segurança social (…) As pessoas simplesmente submeteram isto. Não sei porquê. Elas ‘confiam em mim’. Idiotas do caraças.” Era com estas palavras cruas que, em 2004, pouco após o arranque do Facebook, Mark Zuckerberg prometia a um amigo acesso a dados dos utilizadores.
A conversa – que decorreu num serviço de mensagens online e chegou à imprensa anos mais tarde – aconteceu numa altura em que a rede social era ainda um serviço restrito aos estudantes da Universidade de Harvard e não um gigante que ajudou a transformar o entendimento de boa parte do mundo sobre o que são as fronteiras da privacidade e o que é seguro depositar nos servidores de multinacionais.

Vários anos após aquelas mensagens, um Zuckerberg já multimilionário e presidente de uma plataforma global trocou emails com diretores da empresa sobre como os dados pessoais podiam ser rentabilizados. As mensagens, enviadas entre 2012 e 2015, vieram a público no ano passado, na sequência de uma investigação do Parlamento britânico. Mostram como o Facebook discutia a possibilidade de ceder mais informação às empresas que pagassem por isso. “Queremos que as pessoas possam partilhar tudo aquilo que querem, e que o façam no Facebook”, escreveu Zuckerberg. “E, no futuro, acho que devíamos desenvolver um serviço premium para coisas como personalização instantânea.”

Os documentos deram um vislumbre sobre como os dados pessoais eram encarados pelos gestores do Facebook quando falavam em privado, mas não revelaram práticas necessariamente ilegais, ou sequer incomuns (a rede social argumentou que os emails estavam descontextualizados).
 
Nas últimas duas décadas, vários serviços online trouxeram novas formas de comunicação e de exposição em público das vidas de cada utilizador, e construíram negócios assentes na torrente de informação que, muitas vezes, é lá colocada voluntariamente pelas próprias pessoas. Todos os gigantes tecnológicos, bem como muitas empresas mais pequenas, usam dados para direcionar publicidade, para personalizar serviços, sugerir produtos, encontrar novos clientes, melhorar o desempenho de vendas, antecipar necessidades e perceber qual o próximo projeto em que devem trabalhar.
 
Introduzir no Google a palavra “pizza” é uma experiência diferente em Lisboa ou no Dubai, num computador ou num telemóvel, e consoante aquilo que se tenha pesquisado antes. Procure-se o preço de uma viagem para Paris e é fácil ser-se perseguido online por uma miríade de anúncios a carros de aluguer e hotéis, vindos de plataformas como o Booking e o Airbnb. Faça-se uma compra na Amazon e os algoritmos da empresa tentam perceber o que provavelmente vamos querer a seguir – mesmo que ainda não o saibamos. No Netflix, ainda nem os créditos do último episódio chegaram ao fim e já aparece a sugestão da próxima série, com base no que foi visto antes. No site do PÚBLICO, um sistema de recomendações também analisa os artigos lidos pelos utilizadores para sugerir outros potencialmente relevantes.
 
É uma realidade que não tem sido ignorada pelos utilizadores. “As preocupações com a privacidade dos dados pessoais estiveram, desde sempre, no topo das barreiras à utilização de plataformas digitais, designadamente no âmbito do comércio eletrónico”, observa o académico Nuno Fortes, professor do Instituto Politécnico de Coimbra e autor de uma tese de doutoramento sobre privacidade e consumo online. “Creio que o nível de preocupação tem aumentado nos últimos anos, em paralelo com uma maior consciência dos riscos associados à cedência de dados pessoais”, acrescenta.
 
Também o Regulamento Geral de Protecção de Dados, uma lei europeia que entrou em vigor no ano passado, “veio dar uma maior visibilidade pública a este tema em Portugal, despertando nos utilizadores (e também nas empresas) um maior interesse e conhecimento”, refere Nuno Fortes.
Múltiplos estudos feitos desde meados da década passada indicam que os utilizadores de Internet têm grandes preocupações de privacidade, embora nem sempre ajam em conformidade. É um fenómeno conhecido como “o paradoxo da privacidade”, cujas causas e efeitos são ainda alvo de debate.

                   
“A perceção de uma realidade e a mudança de comportamentos em função dessa constatação raramente acontece”, nota Tito de Morais, fundador da plataforma Miúdos Seguros na Net, que há anos se dedica a alertar para comportamentos de risco online, especialmente entre menores. “Geralmente é necessário experienciar um incidente para as pessoas se aperceberem de que também pode acontecer com elas e mudarem de comportamento. ‘As chatices só acontecem aos outros’ é uma percepção comum a jovens e a adultos.”


Números da Comissão Europeia indicam uma predisposição para partilhar dados online: num inquérito, três quartos dos utilizadores de Internet consideraram que partilhar informação pessoal na Internet fazia cada vez mais parte da vida moderna.
 
Por outro lado, seis em cada dez davam-se ao trabalho de mudar as definições de privacidade dos navegadores de Internet (como o Chrome ou o Internet Explorer). Quatro em cada dez evitavam sites específicos por terem medo de que as suas actividades fossem espiadas; um pouco mais de um terço usava software para evitar ver anúncios online; e um quarto recorria a ferramentas para que a sua atividade online não fosse monitorizada. Em Portugal, os números eram um pouco superiores, indicando uma preocupação maior.
 
Apesar dos cuidados, apenas 15% dos utilizadores na União disseram sentir que tinham controlo completo sobre os seus dados. Metade considerou ter controlo parcial e praticamente um terço disse não ter qualquer controlo. Os dados foram recolhidos entre 2015 e 2016, numa altura em que escândalos como o da consultora Cambridge Analytica ainda não tinham vindo a público.
As empresas, contudo, não se ficam pela análise do comportamento online quando tentam encaixar cada pessoa num perfil de idade, género, preferências, interesses, nível de rendimentos e localização.












segunda-feira, 4 de março de 2019

Momo Challenge: a “mentira” que já se chegou ao Fortnite e à Peppa Pig

Notícia publicada em 1 de março de 2019 em 
Momo Challenge, um desafio que surgiu no ano passado e que volta agora à ribalta através das correntes de partilha no WhatsApp. Entretanto, é também um dos assuntos mais quentes da plataforma YouTube, onde vídeos de Fortnite e da Peppa Pig já foram sinalizados. Tudo começou com uma escultura japonesa, em 2016 que, entretanto, está a ser utilizada para lançar desafios perigosos, ou mensagens inapropriadas.
Em primeiro lugar, “Momo” é a personagem fictícia baseada numa escultura real com contornos inquietantes.
Fortnite Peppa Pig Momo Challenge WhatsApp YouTube
As suas expressão faciais exageradas, os contornos rudes de um bico e os olhos completamente esbugalhados fazem da “Momo” uma visão que não passa despercebida.  Esta mesma personagem estará a ser utilizada no WhatsApp para iniciar conversas aleatoriamente e, caso o utilizador incauto responda, inicia-se o desafio.

O Momo Challange propagou-se via WhatsApp

Após o contacto e conseguindo prender a atenção do contacto visado, o responsável lançaria desafios cada vez mais ousados. Algo que teria como objetivo último levar a pessoa a cometer suicídio, visando sobretudo chegar a crianças. Mentes mais suscetíveis de serem influenciadas pelas redes sociais, WhatsApp, YouTube, entre outras. Contudo, para já não existem vítimas diretamente relacionadas com o Momo Challenge.
Em pouco tempo foi associado ao desafio da Baleia Azul e, tal como este, escondia etapas com automutilação e apologia ao suicídio. Mas, afinal, o que é que é real em todo este caso do Momo Challenge? Em primeiro lugar, a sua rápida propagação, ainda que tudo o demais possa ser considerado uma enorme fake news.
Momo challange whatsApp YouTube desafio Fortnite Peppa Pig
Ainda que muitos dos contornos tenham sido exagerados, o Momo Challenge, de acordo com o DailyMail, o desafio já está a ser veiculado também no YouTube. Mais concretamente através de trechos cuidadosamente inseridos em vídeos aparentemente inofensivos. Em desenhos animados e séries infantis como a Peppa Pig.

Trechos inseridos em vídeos de Fortnite e Peppa Pig

Entretanto, de acordo com a mesma fonte, as alusões e trechos do Momo Challenge também foram encontrados em jogos como o Fortnite, aqui de acordo com o TheSun. A tendência é clara, utilizar os meios e jogos favoritos das crianças. As verdadeiras intenções desta prática são ainda desconhecidas. As reações de alguns pais, por outro lado, não se fizeram esperar.
De acordo com a fonte supracitada, as escolas da Grã-Bretanha estão a encarar esta ameaça como perfeitamente real. Aliás, em comunicado, a Escola Primária de Haslingden, no condado de Rossendale afirma:
Estamos cada vez mais cientes dos vídeos inapropriados para crianças que circulam online e que estão a ser vistos por crianças de toda a escola. Estes (vídeos) estão a aparecer em vários sites como o YouTube (e mesmo no YouTube Kids).
Sun cita o caso específico de um vídeo, entretanto, removido, que começava de forma perfeitamente normal, um episódio da Peppa Pig. Ainda que começasse como qualquer outro episódio, o mesmo continha linguagem inapropriada, apologia ao suicídio infantil. Tudo isto além a divulgação do desafio Momo Challenge.

O YouTube apela à denúncia de vídeos que promovam o Momo Challenge

Tal como alertamos recentemente, estas mensagens continuam a espalhar-se no YouTube. Ainda que a plataforma esteja a tomar uma postura mais severa perante este tipo de conteúdos que violam claramente as suas regras de conduta. Ainda assim, continua a albergar uma ampla discussão sobre o tema.
Assim sendo, a “Momo”, a mulher de cabelos escuros, olhos esbugalhados e feições demoníacas, é uma lenda urbana, um mito. Isso não está sequer em questão. Contudo, tem sido utilizada na plataforma de troca de mensagens e chamadas, WhatsApp, para assustar ou tentar influenciar crianças.
O YouTube explica ainda, em comunicado à CNN que este tipo de conteúdos não é permitido na sua plataforma de vídeos. Além do mais, agradece também o alerta para novas situações como o caso dos vídeos da Peppa Pig e do Fortnite, conteúdo criado para iludir os seus filtros automáticos.

Fortnite, Peppa Pig e outros conteúdos infantis…

O mesmo sucedendo com o YouTube, plataforma em que até conteúdos inócuos como a Peppa Pig ou o Fortnite são usados para corromper a inocência das crianças. Estes foram os casos mais denunciados, mas nada impede que outros formatos e meios sejam utilizados.
O ponto aqui a reter é o seguinte. Há uma nova ameaça bem real ao bem-estar das crianças. Ainda que a sua base possa não passar de um engodo, ou farsa já desmentida pelo relatório da Snopes. Este tipo de mensagens inapropriadas está a circular e pretendemos assim alertar os pais e demais responsáveis pelos menores.
Em suma, a “Momo” é apenas uma lenda urbana, mas isso não invalida o facto de estar a ser utilizada para aterrorizar crianças. Ou mesmo de estar a aparecer em trechos de vídeos da Peppa Pig, ou do Fortnite. Formas ardilosas de chegar à atenção das crianças. Estes sendo os formatos descobertos até ao momento.

O Momo Challenge é questionável, as preocupações dos pais, não!

Entretanto, é igualmente verdade que o caso não gerou vítimas, até ao momento. Este foi o ponto que lhe valeu o rótulo de “fake news” pelo UK Safe Internet Center. Atitude similar foi tomada pelas instituições de caridade, Samaritans NSPCC que, acusaram os media de lançar uma onda de pânico.
Já, por outro lado, as autoridades inglesas estão preocupadas com a situação, respondendo também à crescente onda de consternação social. Aconselham os pais a vigiar atentamente os seus filhos. Sobretudo para a utilização de dispositivos móveis e computador. O melhor, é não facilitar.
Frisando aqui que tanto o WhatsApp como o YouTube continuam a ser as plataformas preferências para a disseminação do Momo Challenge. Por isso, esteja atento a qualquer comportamento atípico do seu filho. A qualquer influência por parte de conteúdos partilhados online.
O desafio pode até não existir. Aliás, é provável que não tenha as dimensões que poderíamos imaginar, mas o seu impacto pode ser bastante real. Nesse sentido, é recomendável uma ação preventiva.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Conferência Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital

 A Conferência "Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital" acontece no dia 28 de fevereiro das 9h às 18h, na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa - Campus de Campolide (https://goo.gl/maps/7Sq4eBmF1nR2). Informa-se que não há estacionamento no local e que a estação de metro mais próxima é a São Sebastião (https://goo.gl/maps/QMdXcBL1aCm).

A sugestão para a hora do almoço é a cantina da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, que fica dentro do Campus. Existem outras opções de restaurantes próximos, que podem ser consultadas aqui: https://goo.gl/maps/taZhRFaqz7p

Se alguém não puder estar presente ( a presença está sujeita a inscrição), informa-se que a conferência terá transmissão ao vivo via streaming, através do link: https://www.youtube.com/watch?v=q3auP5YVI5I&feature=youtu.be

programa completo da conferência e outras informações podem ser consultadas no  site: www.fcsh.unl.pt/eukidsonline







segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Como usam a Internet as crianças e jovens portugueses?

Eles e elas, entre os 9 e os 17 anos, navegam mais na Internet do que há quatro ou oito anos. A mudança deve-se ao uso de smartphones. Que uso fazem e que riscos correm foram algumas das perguntas do inquérito EU Kids Online, levado a cabo junto de cerca de 2000 alunos por uma equipa da Universidade Nova de Lisboa. 

Artigo publicado no Público em 23 de fevereiro de 2019

Fonte: EU Kids Online
Ilustração: José Alves
Texto: Bárbara Wong e Célia Rodrigues






Crianças e jovens já pedem aos pais para retirar dados pessoais da Net

Inquérito - Rede europeia "EU Kids Online"abrange 33 países
Crianças e jovens mostram-se críticos em relação à partilha online de conteúdos pessoais sem o seu consentimento, segundo um inquérito sobre o uso da internet.
Notícia publicada no JN em 23 de fevereiro de 2019
Foto : DR
 Segundo o relatório "EU Kids Online Portugal" de 2018, divulgado este sábado, que analisa os "usos, competências, riscos e mediações da internet reportados por crianças e jovens", há uma atitude crítica proativa dos mais novos em relação ao"sharenting", a partilha de conteúdos pessoais na internet por pais, amigos e até professores sem consentimento dos visados.


Num universo de mais de 1800 respostas de crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos sobre este tema, 28% mencionaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem se estavam de acordo.

De acordo com o relatório, "14% pediram aos pais para retirar esses conteúdos", sendo que essa situação "é referida por quase um quinto das raparigas entre os 13 e os 17 anos".

O documento aponta ainda que 13% dos inquiridos reportaram ficar incomodados com a partilha sem consentimento de informação pessoal, sendo que essa partilha partiu de professores em 7% dos casos.

Segundo o relatório, "6% registam ter recebido mensagens negativas ou ofensivas por causa de conteúdos sobre si publicados pelos pais", sendo que "os rapazes reportam praticamente o dobro do que as raparigas"
.
"A partilha de conteúdos por parte de amigos sem que o próprio dê consentimento é uma prática que também caracteriza a relação de amizade: 25% assinalam que os amigos publicaram coisas sobre si sem lhes perguntarem primeiro se estavam de acordo, com diferenças significativas por idade e género. Essa prática é mais referida nos 13-17 anos e mais por raparigas (36%) do que por rapazes (28%)", acrescenta-se.

Em termos globais, a percentagem passou de 7% dos inquiridos em 2010, 10% em 2014 para 23% em 2018. Mas é na faixa etária entre os 9 e os 10 anos que o crescimento é mais expressivo: dos 2% em 2010 para os 3% 2014 e daí para os 25% em 2018.O documento revela igualmente que em relação a estudos anteriores - o inquérito já tinha tido edições em 2010 e 2014 - mais do que duplicou a percentagem de crianças e jovens se afirmam ter sentido perturbados com a exposição a conteúdos negativos.

O inquérito procurou aferir a sensação de dano colocando uma questão genérica sobre se no último ano tinha acontecido alguma coisa online que tivesse incomodado de alguma maneira, provocando medo ou desconforto. Essa pergunta antecedeu outras questões sobre "bullying" (violência entre pares), "sexting" (envio de mensagens de cariz sexual), pornografia e outros riscos, explica-se no relatório.

"23% das crianças e jovens portugueses de 9-17 anos reportaram ter tido situações que incomodaram na internet no último ano", refere o relatório.

"Cerca de três quartos dos que experienciaram danos indicam que essas situações negativas aconteceram algumas vezes no último ano. Contudo, 23% dos mais novos (9-10 anos) apontam ter tido situações que os incomodaram todas as semanas ou mais", adianta o documento.

A rede de apoio preferencial para falar sobre as experiências negativas online são os amigos (42%) e os pais (33%). Irmãos e irmãs são opção para 13% dos casos e apenas 5% reportam ter falado com professores, sendo que 22% não falou com ninguém.

A solução para lidar com o incómodo causado pela exposição a conteúdos negativos passou por ações proativas, como bloquear o contacto da pessoa na origem do incómodo, ou passivas, como simplesmente esperar que o problema desaparecesse por si, ambas opção em 33% dos casos reportados.

"No seu conjunto, estes valores mais do que duplicaram em relação a 2010 e 2014", constata-se, precisando ainda o relatório que "para 29% dos inquiridos o 'bullying' ocorre com bastante ou muita frequência, tanto 'online' como 'offline'", e que "o 'bullying' através de meios tecnológicos predomina sobre o 'bullying' cara a cara".Sobre "bullying", o relatório indica que o fenómeno está em crescimento: "em 2018, 24% das crianças e jovens portugueses reportaram terem sido vítimas de 'bullying' 'offline' e 'online' no último ano".

"Uma em cada seis crianças e jovens que experienciaram 'ciberbullying' (16%) teve de fazer coisas que não queria fazer", adianta o documento, que acrescenta dados sobre a perspetiva do agressor.

"Cerca de 17% reportam ter tido comportamentos de 'bullying' para com rapazes e raparigas no último ano. A percentagem cresce com a idade e é mais elevada entre rapazes do que entre raparigas", lê-se no documento.

A rede europeia "EU Kids Online", que abrange 33 países e se dedica a estudar a segurança na internet para crianças e jovens, é a responsável pelo estudo aplicado em vários países europeus, incluindo Portugal, onde a pesquisa foi coordenada pela professora e investigadora da Universidade Nova de Lisboa Cristina Ponte, que contou com o apoio logístico da Direção-Geral de Educação.

"Aplicado em escolas públicas e privadas, [o inquérito] foi respondido por uma amostra nacional (incluindo Madeira e Açores) composta por 1.974 rapazes e raparigas de 9 a 17 anos, em regime de autopreenchimento em salas equipadas com meios digitais (preenchimento assistido por computador, CAPI)", explica a nota metodológica, referindo que as questões obrigatórias do inquérito foram aplicadas a toda a amostra, mas as que constituíam os dois módulos opcionais inquiridos em Portugal - Cidadania Digital e Internet das Coisas - apenas foram respondidas pelos maiores de 11 anos.

"As 1.974 crianças e jovens (9-17 anos) que responderam a este questionário distribuem-se igualmente por género e o grupo etário dos 13-17 anos constitui 62% da amostra", refere o relatório sobre o inquérito aplicado no primeiro semestre de 2018 nas escolas.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O que incomoda crianças na internet e como as capacitar para lidar com riscos?

 Artigo publicado em 5 de fevereiro de 2019 por tek.sapo.pt

Os riscos existem na internet mas também nas relações interpessoais. O estudo EU Kids Online questionou as crianças sobre quais são as situações que elas sentem como incómodo e ameaças e a investigadora Cristina Ponte explica os resultados.




Por Cristina Ponte (*)
Em 2010, uma pergunta aberta do questionário EU Kids Online - que as coisas na internet incomodam pessoas da tua idade – foi feita antes de crianças (9-16 anos) responderem a perguntas específicas sobre quatro riscos online que estavam na agenda pública e que muito preocupam os adultos: pornografia, sexting, encontro com estranhos e bullying.
 As respostas dadas por mais de nove mil crianças europeias nos seus próprios idiomas foram depois tratadas de acordo com a tipologia de riscos que distingue: riscos de conteúdo – acesso a conteúdos produzidos e difundidos de modo massivo na rede; riscos de contacto, a sua participação em contactos online iniciados por adultos; e riscos de conduta, que consideram a criança como perpetrador ou vítima de comunicação entre pares.
A análise temática das respostas abertas das crianças identificou três pontos principais: 1) uma diversidade considerável de riscos online; 2) a natureza subtil das circunstâncias que ocasionam tais riscos (da busca deliberada de situações de risco à exposição acidental a eles); e 3) a relevância de conteúdos violentos.As situações de incómodo mais relatadas nessas respostas abertas foram relacionadas, de longe, com riscos de conteúdo, mais de metade (55 por cento) de todas as referências. O risco de condutas de pessoas da sua idade contou com perto de um quinto (19 por cento) de respostas e os riscos de contato contabilizaram 14 por cento das respostas, com o grupo remanescente de respostas a incidir sobretudo em problemas de ordem técnica, como vírus. Assim, o “quadro geral” dado pelas crianças nas suas próprias palavras sobre coisas que incomodavam as pessoas de sua idade enfatizava não apenas conteúdos, mas também situações comunicativas, particularmente as geradas por pessoas da sua idade.
Referências específicas a pornografia (22 por cento), Cyberbullying (19 por cento) e Conteúdo Violento (18 por cento) estavam no topo das avaliações das crianças. A prioridade dada ao conteúdo violento distinguiu-se na medida em que esta situação tinha recebido menos atenção do que riscos como exposição a conteúdo sexual ou bullying nas campanhas públicas de conscientização para os riscos, realizadas junto de crianças.

Referências a outros conteúdos on-line que incomodavam crianças, embora relativamente baixas em número, incluíam suicídio ou anorexia/bulimia (235 referências), conteúdos racistas (117), conteúdos com mensagens de ódio (61) e de persuasão ideológica, religiosa ou fundamentalista (25). Assim, além de conteúdos também disponíveis em canais de TV para adultos ou tarde da noite, como pornografia, as crianças também reportaram ficar incomodadas com conteúdos gerados por outros utilizadores e que circulam na internet, sobretudo nas redes sociais e fóruns de debate.

Em constante atualização

Na origem da internet, que este ano faz meio século, estava uma rede fechada, publicamente financiada e orientada para a comunicação especializada. Contudo, a partir da década de 1990, a internet tornou-se um "espaço profundamente comercializado e cada vez mais usado para a conduta da própria vida social", como referem os sociólogos dos média Nick Couldry e Andreas Hepp (2017). O atual processo de digitalização de dados individuais, transformados em big data e com poderoso valor comercial, é possível pela diversificação dos dispositivos digitais, a sua convergência, omnipresença crescente, um ritmo acelerado de inovação e um crescente e conectado processo de comunicação. Todas estas dimensões têm impacto nas formas como gerações de utilizadores se incorporam no ambiente mediático. O papel de liderança dos jovens nos processos de experimentar e de (re) criar oportunidades digitais é amplamente reconhecido desde a nova linguagem das mensagens escritas que introduziram.

 Desde 2010, quando foi feito o inquérito europeu a crianças e jovens (9-16 anos) de 25 países, o processo de apropriação social dos meios digitais mudou profundamente em termos de acesso aos meios e aos seus conteúdos, alimentado por inovações técnicas, mercados e indústrias. O aparecimento de tablets e a consolidação de smartphones, a sua portabilidade, posse individual e acessibilidade online pela redução de custos destes aparelhos e pelas políticas de fidelização das empresas de telecomunicação, a profusão de aplicações e de novos dispositivos digitais a Internet das Coisas, entre outros aspetos, fizeram com que em menos de uma década os computadores perdessem a sua relevância como principais portas de entrada na internet.

Esse processo também mudou em termos de práticas sociais e culturais, com novos grupos de utilizadores: crianças que cresceram em lares digitais, pais que educam os filhos nesses lares e que não têm como referência a sua própria infância. Pressões para se estar ligado e para se expor e se apresentar convenientemente aos outros, fazendo rever conceitos de privacidade, de vigilância e monitorização. Os ambientes digitais estão sujeitos a processos de mudança rápidos e contínuos, que incluem o crescente papel da comunicação móvel, de novos dispositivos técnicos, e de novos serviços ou aplicações, e de novos indivíduos e ambientes sociais.
Por tudo isto, importa conhecer de modo crítico o que são esses ambientes e que implicações têm nas famílias e nos seus membros de várias gerações, como é que a escola pode desempenhar um papel democratizador e promotor de competências digitais. É por isso que realizaremos no final deste mês de fevereiro, em Lisboa, a apresentação pública e discussão dos mais recentes resultados do inquérito EU Kids Online, realizado em Portugal junto de mais de 1970 crianças e jovens.

Leia o artigo na íntegra em
https://tek.sapo.pt/opiniao/artigos/o-que-incomoda-criancas-na-internet-e-como-as-capacitar-para-lidar-com-riscos


 (*) Professora Associada com Agregação/Coordenadora do Departamento de Ciências da Comunicação
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – NOVA FCSH