Mostrar mensagens com a etiqueta sexting. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sexting. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O que incomoda crianças na internet e como as capacitar para lidar com riscos?

 Artigo publicado em 5 de fevereiro de 2019 por tek.sapo.pt

Os riscos existem na internet mas também nas relações interpessoais. O estudo EU Kids Online questionou as crianças sobre quais são as situações que elas sentem como incómodo e ameaças e a investigadora Cristina Ponte explica os resultados.




Por Cristina Ponte (*)
Em 2010, uma pergunta aberta do questionário EU Kids Online - que as coisas na internet incomodam pessoas da tua idade – foi feita antes de crianças (9-16 anos) responderem a perguntas específicas sobre quatro riscos online que estavam na agenda pública e que muito preocupam os adultos: pornografia, sexting, encontro com estranhos e bullying.
 As respostas dadas por mais de nove mil crianças europeias nos seus próprios idiomas foram depois tratadas de acordo com a tipologia de riscos que distingue: riscos de conteúdo – acesso a conteúdos produzidos e difundidos de modo massivo na rede; riscos de contacto, a sua participação em contactos online iniciados por adultos; e riscos de conduta, que consideram a criança como perpetrador ou vítima de comunicação entre pares.
A análise temática das respostas abertas das crianças identificou três pontos principais: 1) uma diversidade considerável de riscos online; 2) a natureza subtil das circunstâncias que ocasionam tais riscos (da busca deliberada de situações de risco à exposição acidental a eles); e 3) a relevância de conteúdos violentos.As situações de incómodo mais relatadas nessas respostas abertas foram relacionadas, de longe, com riscos de conteúdo, mais de metade (55 por cento) de todas as referências. O risco de condutas de pessoas da sua idade contou com perto de um quinto (19 por cento) de respostas e os riscos de contato contabilizaram 14 por cento das respostas, com o grupo remanescente de respostas a incidir sobretudo em problemas de ordem técnica, como vírus. Assim, o “quadro geral” dado pelas crianças nas suas próprias palavras sobre coisas que incomodavam as pessoas de sua idade enfatizava não apenas conteúdos, mas também situações comunicativas, particularmente as geradas por pessoas da sua idade.
Referências específicas a pornografia (22 por cento), Cyberbullying (19 por cento) e Conteúdo Violento (18 por cento) estavam no topo das avaliações das crianças. A prioridade dada ao conteúdo violento distinguiu-se na medida em que esta situação tinha recebido menos atenção do que riscos como exposição a conteúdo sexual ou bullying nas campanhas públicas de conscientização para os riscos, realizadas junto de crianças.

Referências a outros conteúdos on-line que incomodavam crianças, embora relativamente baixas em número, incluíam suicídio ou anorexia/bulimia (235 referências), conteúdos racistas (117), conteúdos com mensagens de ódio (61) e de persuasão ideológica, religiosa ou fundamentalista (25). Assim, além de conteúdos também disponíveis em canais de TV para adultos ou tarde da noite, como pornografia, as crianças também reportaram ficar incomodadas com conteúdos gerados por outros utilizadores e que circulam na internet, sobretudo nas redes sociais e fóruns de debate.

Em constante atualização

Na origem da internet, que este ano faz meio século, estava uma rede fechada, publicamente financiada e orientada para a comunicação especializada. Contudo, a partir da década de 1990, a internet tornou-se um "espaço profundamente comercializado e cada vez mais usado para a conduta da própria vida social", como referem os sociólogos dos média Nick Couldry e Andreas Hepp (2017). O atual processo de digitalização de dados individuais, transformados em big data e com poderoso valor comercial, é possível pela diversificação dos dispositivos digitais, a sua convergência, omnipresença crescente, um ritmo acelerado de inovação e um crescente e conectado processo de comunicação. Todas estas dimensões têm impacto nas formas como gerações de utilizadores se incorporam no ambiente mediático. O papel de liderança dos jovens nos processos de experimentar e de (re) criar oportunidades digitais é amplamente reconhecido desde a nova linguagem das mensagens escritas que introduziram.

 Desde 2010, quando foi feito o inquérito europeu a crianças e jovens (9-16 anos) de 25 países, o processo de apropriação social dos meios digitais mudou profundamente em termos de acesso aos meios e aos seus conteúdos, alimentado por inovações técnicas, mercados e indústrias. O aparecimento de tablets e a consolidação de smartphones, a sua portabilidade, posse individual e acessibilidade online pela redução de custos destes aparelhos e pelas políticas de fidelização das empresas de telecomunicação, a profusão de aplicações e de novos dispositivos digitais a Internet das Coisas, entre outros aspetos, fizeram com que em menos de uma década os computadores perdessem a sua relevância como principais portas de entrada na internet.

Esse processo também mudou em termos de práticas sociais e culturais, com novos grupos de utilizadores: crianças que cresceram em lares digitais, pais que educam os filhos nesses lares e que não têm como referência a sua própria infância. Pressões para se estar ligado e para se expor e se apresentar convenientemente aos outros, fazendo rever conceitos de privacidade, de vigilância e monitorização. Os ambientes digitais estão sujeitos a processos de mudança rápidos e contínuos, que incluem o crescente papel da comunicação móvel, de novos dispositivos técnicos, e de novos serviços ou aplicações, e de novos indivíduos e ambientes sociais.
Por tudo isto, importa conhecer de modo crítico o que são esses ambientes e que implicações têm nas famílias e nos seus membros de várias gerações, como é que a escola pode desempenhar um papel democratizador e promotor de competências digitais. É por isso que realizaremos no final deste mês de fevereiro, em Lisboa, a apresentação pública e discussão dos mais recentes resultados do inquérito EU Kids Online, realizado em Portugal junto de mais de 1970 crianças e jovens.

Leia o artigo na íntegra em
https://tek.sapo.pt/opiniao/artigos/o-que-incomoda-criancas-na-internet-e-como-as-capacitar-para-lidar-com-riscos


 (*) Professora Associada com Agregação/Coordenadora do Departamento de Ciências da Comunicação
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – NOVA FCSH

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Sexting dispara entre jovens. E alguns só têm 11 anos



Artigo publicado no SAPOLifestyle em 6 de agosto de 2018.


A massificação dos telemóveis transformou o sexting – troca de mensagens de cariz sexual – num hábito comum entre adolescentes. Os especialistas alertam para as consequências deste fenómeno, que envolve miúdos cada vez mais novos e também é usado para fazer bullying ou chantagem.

Há meia dúzia de anos o conceito era obscuro, mas hoje quase todos os jovens sabem o que quer dizer e muitos fazem aquilo que ele define: trocar mensagens de cariz sexual através do telefone. O sexting começou por se limitar ao texto, mas com a evolução das tecnologias depressa começou a contemplar fotografias e vídeos. Desde então, os seus estragos não param de se acumular.
Um novo estudo, publicado pela JAMA Pediatrics e divulgado pela CNN, defende que um em cada quatro jovens norte-americanos confessou ter recebido este tipo de mensagens e um em cada sete admitiu tê-lo enviado. A investigação contemplou 39 projetos autónomos, realizados entre janeiro de 1990 e junho de 2016, que envolveram mais de 110 mil participantes, todos com menos de 18 anos e alguns com apenas 11.
Ressalvando que foi a massificação do acesso aos telemóveis que provocou este fenómeno, os autores do estudo sugerem que “as informações específicas sobre sexting e as suas consequências devem começar a ser trabalhadas em aulas de educação sexual”.
A pesquisa mostra que entre os mais jovens, o sexting é uma forma de explorar a atração sexual. “À medida que crescem, os adolescentes sentem cada vez mais interesse pela sexualidade; estão a tentar descobrir quem são”, afirmou o co-autor do estudo e professor de psiquiatria da Universidade do Texas, Jeff Temple.
Os riscos que as crianças e pré-adolescentes mais novos correm são assustadores, tendo em conta as armadilhas deste tipo de conteúdo. Diz o artigo da CNN que as relações entre pré-adolescentes (entre 10 e 12 anos) são quase sempre de curta duração, o que torna os miúdos mais vulneráveis ​​ao sexting sem consentimento, pois tornou-se comum “usar imagens e vídeos de nus como forma de ameaça ou chantagem”.
Tendo em conta que a média de idade dos miúdos que começam a usar smartphones está nos 10,3 anos, Jeff Temple acredita que “vamos assistir a um aumento do número de adolescentes com vida sexual”.
“As crianças não têm uma compreensão absoluta do que é uma relação de causa e efeito”, defende Sheri Madigan, professora assistente do Departamento de Psicologia da Universidade de Calgary e coautora do estudo.
“Quando enviam uma fotografia, muitos não pensam que jamais poderão recuperá-la e que o destinatário pode fazer com ela o que bem entender”.
Madigan diz que parte do problema está no cérebro dos adolescentes. “Os mais jovens têm os lóbulos frontais menos desenvolvidos e, por isso, são menos capazes de pensar sobre determinados assuntos do que os mais velhos. Provavelmente são mais vulneráveis ​​à pressão para fazer sexo ou participar em sexting não-consensual”.
De acordo com este estudo, 12,5% dos jovens – ou seja, um em cada oito – diz ter reencaminhado uma mensagem deste teor sem o consentimento do remetente e/ou do destinatário, o que revela bem a falta de segurança que envolve o fenómeno. “Sabemos que os sexts estão a ser reencaminhados sem consentimento e se os pais conversarem com os filhos adolescentes sobre sexting, devem falar sobre tais riscos”, defendeu Sheri Madigan, reforçando que se as mensagens forem trocadas sem a conivência dos intervenientes o assunto é muito grave. “Se olharmos para o fenómeno como um comportamento sexual consensual – com ambos os adolescentes a lidarem bem com o assunto – não haverá qualquer problema para a saúde mental”. Mas se o sexting for feito à revelia dos intervenientes, as consequências podem ser dramáticas.

COMO FALAR COM OS SEUS FILHOS SOBRE SEXTING

  • Faça perguntas amplas como “já ouviste falar de sexting?”. Se perceber até que ponto ele domina o assunto, torna-se mais fácil conduzir a conversa.
  • Use exemplos apropriados à idade do seu filho e seja específico sobre as consequências do sexting. “Os pais devem ser proactivos e não reativos”, defende Madigan.
  • Recorde ao seu filho que o amor-próprio não é negociável. E que o sexting não é forma de provar amor a ninguém.
  • Evite julgamentos e preconceitos. E não queira ter a última palavra. Deixe o adolescente explicar o que sente.
  • Não se assuma como especialista na matéria.
  • Não o “proíba de”. Proibir, muitas vezes, é apenas convidar à desobediência.
  • Seja compreensivo. Os tempos mudaram e há coisas que custam a entender quando se é adulto.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Entrevista a uma hacker: “O envio de fotos íntimas é sempre inseguro”

Photo by Jay Wennington on Unsplash



"Ana Santos é uma hacker profissional e vive a testar sistemas de segurança. Leia uma entrevista que deve deixar-nos alerta. E preocupados.

O uso de fita adesiva nas câmaras dos portáteis é justificado, em 2018 já não se admite que as palavras-chaves sejam básicas e simples de adivinhar, e são cada vez mais os riscos associados à falta de proteção no meio online. Quem o diz é Ana Santos, 28 anos, natural de Lousada, mas que reside agora em Lisboa a trabalhar na área da segurança informática.

Ana é uma hacker ética e grande parte do seu trabalho passa por monitorizar a infraestrutura informática da empresa onde está empregada, onde também aposta em medidas de prevenção contra possíveis ataques ou vulnerabilidades. À MAGG não só respondeu a 21 perguntas acerca do seu trabalho, como também contou como foi singrar num meio tipicamente masculino. E revelou ainda qual é a forma mais frequentemente utilizada para roubo de informação pessoal.

(...)

Qual é a forma mais usada para roubo de informação?
A engenharia social, que dita que o elemento mais vulnerável de qualquer sistema de segurança é o ser humano. Precisamente porque possui traços comportamentais e psicológicos que o torna suscetível a ser vítima de um ataque informático. O simples facto de ir na rua e alguém lhe pedir os seus dados para uma promoção fantástica onde é possível vir a ganhar não sei o quê, é uma forma muito simples de um ataque à base de engenharia social.

A partir do momento em que fornece aqueles dados, a sua segurança e privacidade está automaticamente posta em causa já que perdeu o controlo total acerca da forma como aquela informação poderá vir a ser utilizada no futuro.

Lembro-me que quando me encontrou no Facebook, disse-me que nunca se devia colocar o local de trabalho visível no perfil. Porquê?
Costumo fazer sempre uma espécie de jogo nas formações que dou. Olho para a lista de presenças, vejo os nomes de todos os presentes e vou ao Facebook procurar por eles. Além dos nomes, procuro também pelo nome da empresa onde estão empregados e facilmente os encontro. Depois é só uma questão de confirmar os dados através de outras redes sociais — como o LinkedIn — e como é óbvio a informação está lá toda o que me permite ficar a saber tudo acerca daquele indivíduo que, há coisa de cinco minutos, não fazia ideia quem era.

Mas como é que essa informação é usada em engenharia social?
Imagine que faço um levantamento exaustivo sobre si. Sei onde passou férias e onde trabalha. Dirijo-me à sua empresa com um cartão falso de funcionário e digo que sou nova na empresa. Geralmente todos aproveitam o tempo de pausa para ir almoçar ou para vir fumar um cigarro cá fora e eu faço uso disso para meter conversa consigo. Digo que sou nova na empresa e estamos durante um bocadinho a falar. Eu finjo que não sei nada sobre si e a conversa flui livremente, até que chega à hora de entrar no edifício e eu não consigo — já que o meu cartão não é real.

O segurança, por ver que tenho um cartão exatamente igual ao de outros funcionários, abre a porta — numa empresa com dezenas de pessoas é muito improvável que seja capaz de memorizar caras. Depois é uma questão de chegar ao departamento onde me desejo infiltrar, e é tão fácil como pedir indicações. Ninguém vai desconfiar ou negar a entrada, precisamente porque sou nova na empresa e fiz uso de toda a informação que descobri previamente sobre si para conseguir passar da porta da entrada.

Acha que as pessoas subestimam os perigos da falta de segurança nas redes sociais?
Sim, são cada vez mais os casos de rapto ou desaparecimento de miúdos porque foram criados perfis falsos de Facebook para atrair crianças através do mais variados pretextos.

Há informação suficiente acerca dos perigos?
Não há informação suficiente e as pessoas não estão formadas. Além de darem a sua segurança como garantida, não fazem o mínimo esforço para camuflar um bocadinho das suas vidas privadas. Parece que não há filtro e tudo de domínio público, o pior é que há muita gente que faz vida do uso indevido dessa informação.

Quão inseguro é o sexting e o envio de fotografias íntimas?
O envio de fotos íntimas é sempre inseguro. Nunca se sabe quem é que vai conseguir entrar no computador ou no telemóvel ou, pior, o que vai acontecer a essas fotografias depois de enviadas. É um bocadinho o que acontece com a instalação de aplicações no telemóvel. São muitas as pessoas que, ao instalar uma determinada app, não questionam tudo aquilo a que passa a ter acesso.

Porque é que uma simples aplicação de efeitos de fotografias, por exemplo, tem de ter acesso à câmara, ao microfone e aos contactos do telemóvel? Quase ninguém se questiona e aceitam simplesmente tudo o que lhes é apresentado.

O armazenamento na nuvem é seguro?
Não quero desenvolver muito porque ainda é um tema que causa muita discordância entre muitos dos profissionais da área. Eu, pessoalmente, fujo sempre de alguns dos serviços mais conhecidos e usados — como a Dropbox ou a Google Drive — e ainda sou daquelas pessoas que usam discos rígidos para guardar toda a informação pessoal. A cloud ainda não me convenceu porque na verdade nunca sabemos bem onde é que os nossos dados estão guardados e quem é que pode ter acesso a eles.

E os serviços que dizem encriptar as nossas mensagens e torná-las privadas? É mesmo assim?
Creio que para nós, que trabalhamos na área, é difícil confiar a 100% no que nos dizem. Por vezes só o fazemos quando existe um certificado que dita que aquele serviço é totalmente seguro, mas também não podemos viver num mundo à parte. Pessoalmente, gosto muito de usar o WhatsApp, que foi um dos serviços a encriptar as mensagens enviadas e recebidas entre utilizadores — o que significa que supostamente estão livres de olhos alheios.

No entanto, o serviço foi comprado pelo Facebook… e não sei bem até que ponto é que nos estão a dizer toda a verdade.

(...)

Qual é a melhor forma de preservar a segurança de alguém online?
Uma vez li uma frase que dizia qualquer coisa como: “Se não é capaz de estampar uma t-shirt com aquilo que está a pensar, porque haveria de o publicar em plataformas online?” Acho que é um bocadinho por aí.

(...)

O utilizador continua a ser o maior obstáculo à sua segurança?
Sim, e é por isso que, para mim, é essencial formar pessoas. Quanto mais informação houver, mais seguras as pessoas vão estar. Já o disse e volto a repetir: muitas das pessoas dão a sua segurança como garantida. Não sabem quando foi o último grande ataque informático e nem questionam se podem ou não ter um vírus instalado no computador. Simplesmente assumem que não e não se preocupam mais com isso.

Qual é a melhor password?
Não há uma password ideal, mas aquelas que demoram mais tempo a descobrir são as melhores. Há várias formas para criar uma palavra-passe forte, como escrever uma frase e alternar entre números, caracteres especiais — como parêntesis, arrobas ou pontos de exclamação — e colocar as letras em caixa alta e caixa baixa. Tudo o que seja mais difícil de descobrir é suficiente. E qualquer coisa é melhor do que a típica chave “123456”.

Ainda faz sentido meter fita adesiva na câmara da portátil?
Sim, sem dúvida. Eu uso e não me arrependo. É muito fácil ser estabelecido um acesso indevido às câmaras dos computadores e muitas vezes as luzes das câmaras não são acionadas para que o utilizador não desconfie. Desde usar fita adesiva ou aquelas tampas que colam ao ecrã, tudo serve.

Caso contrário, costumo sempre dizer às pessoas com quem falo para não irem para a casa de banho ou se despirem em frente ao computador. Tudo por uma questão de privacidade. Não custa nada prevenir".

Excerto de entrevista por Fábio Marins para MAGG, em 2 de junho de 2018.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Raparigas partilham fotos íntimas porque são pressionadas por eles: um artigo do Público

NUNO FERREIRA SANTOS


Artigo de Rita Marques Costa para o jornal Público, em 8 de janeiro de 2018:

Pressão, manipulação e ameaças são as estratégias adoptadas pelos rapazes adolescentes para obter fotografias íntimas das raparigas. As jovens sabem que devem dizer não mas muitas vezes cedem, diz estudo. Especialistas avisam que a prática é cada vez mais comum entre os jovens portugueses, que muitas vezes não estão conscientes dos perigos.

“Por favor, ajudem-me… Eu gosto mesmo deste rapaz, mas ele usa-me. Está sempre a falar de sexo, quer fotos minhas e fica chateado quando não o faço. O que devo fazer? Estou tão confusa…” Este é um dos excertos publicados no estudo de uma investigadora norte-americana da Northwestern University, Sara Thomas, que avalia as razões que levam as raparigas adolescentes a enviar fotografias íntimas de si próprias ou a optar por não fazê-lo.

Os 462 depoimentos analisados foram deixados no site A Thin Line – uma iniciativa do canal MTV para combater o bullying digital e outros abusos entre adolescentes – entre 2010 e 2016, por raparigas que tinham, em média, 15 anos.

Quase 40% das jovens que recorreram à plataforma para partilhar a sua experiência justificaram o envio de fotos íntimas com a coerção exercida pelos rapazes. Na maior parte das vezes, na forma de pressão e ameaças.



A vontade de agradar o namorado ou conquistar um potencial parceiro e a persistência dos remetentes também figuram como motivações para estas jovens.

Em Portugal, apesar do fenómeno ainda ser pouco estudado, alguns psicólogos e investigadores que trabalham a área do ciberbullying arriscam dizer que a realidade não será muito diferente da descrita no estudo.

Quanto às motivações para a partilha, em muitos casos, “não o fazer é demonstrar fraqueza”, diz Tito de Morais, responsável pelo projecto Miúdos Seguros na Net. Luís Fernandes, psicólogo na Associação Sementes de Vida, reforça que há uma grande “vontade de agradar”.


Desejo também conta

O fenómeno é tão comum “que os pais nem imaginam”, nota Luís Fernandes. O psicólogo adianta que, por enquanto, esta será uma tendência “crescente”.

Porém, se é verdade que existe este lado negro da exposição e abuso, também há que ter atenção para não “diabolizar” a prática, nota Tito de Morais. O especialista detalha que esta é “uma forma dos jovens expressarem a sua sexualidade”, cada vez mais comum e na maior parte das vezes “não tem consequências”.

Para Sónia Seixas, doutorada em psicologia pediátrica pela Universidade de Coimbra, as experiências com a sexualidade e o corpo do outro, comuns na adolescência, passam a “deixar um rasto digital, quando antes eram estritamente presenciais”. Isto faz com que partilhas, neste caso de fotos íntimas, que inicialmente eram inocentes podem tornar-se abusivas com o fim de uma relação.

A psicóloga admite que quando as imagens são divulgadas publicamente, a situação é vista como “humilhante” para as raparigas. Já para os rapazes esse não é o caso. “Ainda se nota esta dinâmica”, mas “as mentalidades estão a mudar”, comenta Sónia Seixas.


Aceitam termos impostos pelos rapazes

Ainda assim, no estudo da investigadora norte-americana, só em 8% dos depoimentos analisados as raparigas disseram ter enviado as suas fotografias íntimas por desejo.

A investigadora resume no seu estudo: “quando confrontadas com este tipo de pressão, as raparigas aquiescem aos termos impostos pelos rapazes no que diz respeito ao envolvimento romântico e sexual”. Contudo, “se bem que a maioria das raparigas assume a responsabilidade de negociar e gerir todas estas pressões, também reportam alguma confusão e insuficiência de recursos para lidar com este tipo de questões”.

Quanto à intensidade dos fenómenos de coerção noutros países, Sara Thomas comenta ao PÚBLICO que “há mais países que têm de lidar com este fenómeno”. Contudo, não é algo exclusivo de uma faixa etária. “Se acontece entre adultos, também vai acontecer entre jovens.” 


Estratégias para os pais e adolescentes

Apesar das estratégias de “sexting seguro” que alguns sugerem, como não captar o rosto ao tirar este tipo de fotografias ou utilizar plataformas onde o período de vida das imagens é limitado, ainda é possível ver o remetente das imagens ou fazer uma captura de ecrã. Tito de Morais diz que compreende esta prática, mas não a recomenda “nem a jovens nem a adultos”.

A educação ocupa um papel importante na prevenção deste tipo de comportamentos.  Especialmente no sentido da “assertividade” para que os jovens percebam que não devem fazer aquilo que não querem ou não acham correcto.

Mas quando o mal está feito e as vítimas são os jovens, há várias coisas que podem ser feitas. Para já, “a comunicação é essencial”. Os jovens devem saber com quem contar e quando já há um canal de comunicação “é mais fácil”, diz Luís Fernandes.

Os pais também devem estar atentos aos comportamentos dos jovens. “Quando os miúdos começam a evitar as tecnologias, mostram-se nervosos e manifestam alterações de comportamento” há motivos para desconfiar. O facto dos pais serem pouco conhecedores do mundo digital não ajuda.