segunda-feira, 4 de junho de 2018

Muitas crianças não conseguem pegar numa caneta por causa da tecnologia

Photo by Ludovic Toinel on Unsplash

Artigo publicado pela SIC Notícias, em 27 de fevereiro de 2018.


Muitas crianças britânicas têm cada vez mais dificuldades em realizar um gesto tão simples como pegar num lápis ou numa caneta. Segundo os médicos, isto deve-se a um uso excessivo de aparelhos tecnológicos.

O alerta é lançado por médicos pediatras e aponta a utilização excessiva de telemóveis e tablets como a principal causa para que muitas delas não desenvolvam os músculos da mão de forma necessária à realização de gestos tão simples como pegar numa caneta.

Em declarações ao jornal britânico The Guardian, Sally Payne, terapeuta pediátrica na fundação Heart of England, explica que "as crianças de hoje não têm a mesma força e destreza na mão que tinham há 10 anos", o que dificulta o uso de canetas e lápis, fundamental em qualquer dia de escola.

A médica britânica refere que "é mais fácil dar a uma criança um iPad do que encorajá-la a atividades que apoiem o desenvolvimento dos músculos".

Mellissa Prunty, pediatra de terapia ocupacional que se foca nos problemas da escrita, considera que as crianças estão a aprender a escrever cada vez mais tarde e aponta também o uso excessivo de aparelhos tecnológicos para justificar tal facto.

"Um dos problemas é que a escrita desenvolve-se de uma forma muito própria em cada criança. (...) Sem uma investigação cuidada, existe o risco de tirarmos conclusões precipitadas sobre os motivos que levam a que uma criança não saiba escrever dentro daquela que é a idade expectável, sem que haja uma intervenção quando a principal causa é a tecnologia", explica a pediatra.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Parece ficção, mas é escola: conheça novidades tecnológicas que já chegaram à sala de aula

Shutterstock

Realidade aumentada, robôs e inteligência artificial são alguns dos recursos que já começam a ser utilizados na educação
Veja abaixo algumas novidades tecnológicas que já chegaram às escolas:
Passeios pelo mundo e pelo passado
O estudante pode estar dentro da sala de aula de todos os dias, mas graças ao chamado 4D+, visitar o mundo pré-histórico e ver dinossauros. Tudo se movimenta com as características de como seria na realidade, o que permite desenvolver habilidades como observação, comparação, classificação. “A realidade aumentada traz a possibilidade de investigação para a sala de aula que não seria possível de outra forma”, explica a diretora acadêmica da Be – Bilingual Education, Flávia Fulgêncio. Além da chamada realidade aumentada, a Realidade Virtual (VR, virtual reality, em inglês) é outra ferramenta que passou a integrar o leque de estratégias de promoção para o aprendizado do inglês: o aplicativo VR do Google Expeditons leva o aluno a explorar diversas partes do mundo e, a partir dessa experiência, estimula o aprendizado de um segundo idioma, garantem os criadores da metodologia.
Convivendo com robôs…
Faz tempo que eles já vivem entre nós: fabricam os mais variados produtos que consumimos, nos atendem em serviços de telemarketing, aspiram o chão de alguns lugares sem depender de supervisão humana constante. Se no imaginário popular há um temor de que os robôs um dia substituam a humanidade, nas escolas há um entendimento crescente de que os estudantes precisam aprender a dominá-los. Assim, a presença de aulas de robótica dentro de instituições de educação básica vem crescendo e se diversificando. A empresa Mundo4D aposta na adoção de robôs e na oferta de praticidade. Para facilitar a vida dos gestores, leva um laboratório portátil para dentro das dependências escolares, que pode ser usado por crianças a partir de 4 anos. “As escolas têm consciência da importância da inserção do ensino das competências do século 21 no panorama infantil”, afirma André Emil Getschko, fundador da empresa.
… e se divertindo com eles
Os robôs podem ser muito úteis no cotidiano, claro, mas também podem servir apenas para o lazer. Uma das mais tradicionais empresas de robótica educacional do Brasil, a Zoom Education for Life, está lançando alguns projetos competitivos para os robôs feitos pelos estudantes. São as oficinas de Torneio de Futebol de Robôs, de Corrida de Carros e de Conquista Espacial. Cada uma dessas oficinas terá um apoiador de destaque no mercado, de acordo com o seu know-how. Na Oficina de Torneio de Futebol de Robôs, por exemplo, o Instituto Projeto Neymar Jr., em Praia Grande, litoral de São Paulo, patrocinará e sediará uma competição entre os robôs-boleiros dos alunos. “Estamos lançando uma nova plataforma de relacionamento com as escolas, que vai muito além do contexto do currículo escolar e do contraturno. São experiências imersivas, rápidas e inspiradoras”, diz Rafael Bonequini, diretor da Zoom. Mas ainda que as lesões robóticas possam ser rapidamente arrumadas com soldas e parafusos, Neymar já avisa que nenhum robô vai substituí-lo na Copa.
Tudo conectado
Para o mundo de amanhã, quando os hoje estudantes terão de se tornar pessoas economicamente produtivas, dominar os robôs e se divertir com eles ainda parece pouco. Será preciso receber informações e dar ordens a distância para todos os objetos que nos cercam, de câmeras de segurança a geladeiras, de impressoras a cafeteiras, e sabe-se lá mais o quê. Assim, outro conteúdo que passa a entrar nas grades escolares é a Internet das Coisas, ou IOT, sigla para a expressão em inglês Internet of Things. A Happy Code, escola de tecnologia que já se destaca por oferecer programas pioneiros para Youtubers e Robótica com Drones, está lançando cursos desta nova categoria. A empresa garante que o curso “Internet das Coisas” promove um aprendizado prático e divertido, que desenvolve também a criatividade dos alunos. Outra empresa que passa a incluir IOT em seu portfólio é a Microduino, que usa a nova versão do software Scratch para conectar os objetos ao redor.
Tudo “pensando” sozinho
Blocos de montar podem ser programados para executar tarefas de forma autônoma. Podem ser conectados à internet para enviar dados que coletaram e receber novas instruções. E a última fronteira é fazê-los pensar sozinhos. Mas um sistema de Inteligência Artificial (IA) precisa primeiro que alguém lhe ensine a tomar decisões. Antes que um humano possa ensinar a “máquina”, ele precisa aprender como fazer isso. Mais uma vez, parece que cabe às escolas o papel de ensinar quem vai ensinar o computador a pensar. Empresas terceirizadas já começaram a responder a tal expectativa. Nos cursos da Happy Code, os estudantes passarão a fazer uso prático do Watson, a plataforma de IA da IBM. A Microduino também incluiu em seus programas exemplos de aplicações focadas em Inteligência Artificial. O mundo está ficando mais complexo – e as escolas também.
Artigo publicado no site www.revistaeducacao.com.br, em 16 de maio de 2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Páginas de Facebook falsas responsáveis por mais de metade do 'phishing' nas redes sociais


Getty Images


Dados relativos ao primeiro trimestre deste ano dão conta de que páginas falsas criadas no Facebook respondem por quase 60% dos roubos de dados pessoais nas redes sociais. Já em 2017, esta rede social tinha ficado no topo da lista negra.

O Facebook é, neste momento - e a manter a tendência do ano passado -, a rede social onde as pessoas são mais alvo de phishing, crime que acontece quando se roubam dados pessoais de alguém, a partir de uma conta online e, neste caso, de uma rede social. Estes dados foram publicados no mais recente relatório da Kaspersky Lab - "Spam e phishing no 1ºT de 2018" - que revela ainda a contínua tentativa dos hackers de obter os dados pessoais dos utilizadores.
De acordo com o relatório, durante os primeiros três meses do ano, o Facebook liderou a origem dos ataques por phishing nas redes sociais - representaram 58,69% dos ataques -, com várias páginas a serem replicadas e falsificadas por hackers para roubos de dados pessoais.
Logo a seguir está a VK, rede social russa semelhante ao Facebook, com 20,86% e, depois, o Linkedin, com 12,91% dos ataques phishing em redes sociais. Importa dizer que a média mensal de utilizadores ativos em todo mundo, no Facebook, é de 2,13 mil milhões, que inclui os que acedem a outras aplicações com as mesmas credenciais do Facebook: este facto contribui para o aumento destes ataques, já que torna os utilizadores muito mais vulneráveis e um alvo fácil e rentável para os hackers.
Já em 2017 o Facebook tinha ficado no topo das redes sociais com maior casos de ataques phishing, com 8% dos ataques totais. Logo a seguir, ficou a Microsoft Corporation, com 6% dos crimes, e o PayPal, com 5% dos ataques totais.
O relatório revelou ainda os países do mundo com maior número de utilizadores vítimas destes ataques: o Brasil lidera, com uma percentagem de 19%; logo depois fica a Argentina, com 13% destes crimes, bem como a Venezuela e a Albânia, com a mesma percentagem. A Bolívia está logo depois, com 12 por cento.
Nadezhda Demidova, Investigadora Principal de Conteúdo Web na Kaspersky Lab, disse, em comunicado, que, apesar dos mais recentes escândalos mundiais relacionados com a proteção dos dados nas redes sociais, "as pessoas continuam a clicar em links inseguros e a permitir que aplicações desconhecidas acedam aos seus dados pessoais".
A nova tendência deste tipo de fraudes é o envio de emails spam relacionados com a Regulação Geral de Proteção de Dados, que incluem, por exemplo, convites para a instalação de um software específico que ajuda a garantir o cumprimento das novas leis, que entraram em vigor no dia 25 de maio.
O relatório revela que, nos primeiros três meses do ano, o país mais atacado por emails de spam maliciosos foi a Alemanha, seguida da Rússia, Reino Unido e Itália.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Os jogos online não são apenas uma brincadeira

Photo by Kelly Sikkema on Unsplash



São divertidos, repletos de imagens engraçadas (algumas são tão reais que parecem mesmo verdadeiras dentro de um pequeno ecrã), recheados de movimentos (estudados ao milímetro do milímetro pormenor), com quebra-cabeças, estratégias, planos. São jogos online onde cabe tudo o que se quiser. Haja imaginação. Prendem a atenção e vivem por modas. O Angry Birds foi uma loucura, o Minecraft continua em alta. 

 Nasceram para entreter, mas podem também funcionar como ferramentas pedagógicas, instrumentos de estudo. Eles existem, estão no meio de nós, e há coisas que convém saber antes de ligar os aparelhos eletrónicos. Há perigos e ratoeiras à espreita. 

Apps, conteúdos, publicidade, compras 


Diz quem sabe que os riscos dependem dos jogos. “A generalidade das apps solicita ou capta dados pessoais dos utilizadores, pelo que podem constituir um risco para a privacidade e para a segurança”, avisa Tito de Morais, fundador de MiudosSegurosNa.Net, um projeto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online de crianças e jovens. Os conteúdos são outro risco. Pode haver jogos impróprios com cenas demasiado violentas, por exemplo. Idade e maturidade são importantes. 

 Há outros perigos. “Algumas apps permitem e potenciam os contactos ou troca de mensagens entre os utilizadores e tal pode constituir um risco”, acrescenta. É preciso saber quem está do outro lado. Se é ou não de confiança. O que nem sempre é possível. Por isso, máxima atenção. Depois, pode-se gastar dinheiro sem querer, sem dar conta. “A publicidade intrusiva e as práticas comerciais não éticas também podem constituir um risco, levando a compras não autorizadas ou acidentais”, alerta Tito de Morais. E há mais. “Convém ter cuidado com as fontes a partir de onde se fazem os downloads, pois são conhecidas aplicações que na realidade se tratam de spyware”, revela. 

Viviar ou ensinar? Eis a questão. 


Os jogos podem ser um pau de dois bicos. Alguns jogos e aplicações podem prender demasiado quem os utiliza. O que, explica Tito de Morais, leva “a uma utilização excessiva, o que pode não ser saudável”. O jogo torna-se um vício, muitas horas de olhos colados no ecrã, dedos nos botões. Jogos, jogos, e mais jogos. E isso não faz bem à cabeça. “A utilização excessiva é uma realidade e pode trazer implicações negativas para a saúde e bem-estar das crianças, jovens, mas também adultos”. Nesse sentido, é preciso estabelecer limites e regras (e cumprir, claro está), ter a autonomia e o autocontrolo bem apurados, e apoio e ajuda dos pais e de quem perceba da matéria. 

 Os jogos online também têm virtudes. Cada vez mais, os professores usam jogos para ensinar. “Hoje, mais do que mero entretenimento, os jogos podem ser também importantes ferramentas pedagógicas e as mecânicas dos jogos começam também a ser cada vez mais usadas em contexto educativo, algo conhecido por ‘gamification’ ou gamificação”, explica o responsável pelo projeto MiudosSegurosNa.Net. 


 Artigo de Sara Dias Oliveira, publicado em http://tag.jn.pt/

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Hikikomori, está a crescer: milhares de jovens em autorreclusão em casa

Photo by Steinar Engeland on Unsplash


Artigo publicado no site da RevistaIHU on-line, de 20 de fevereiro de 2018.

Eles estão entre os 14 e 25 anos e não estudam nem trabalham. Não têm amigos e passam a maior parte do dia em seus quartos. Dificilmente falam com os pais e parentes. Eles dormem durante o dia e vivem à noite para evitar qualquer confronto com o mundo exterior. Eles se refugiam nos meandros da Web e das redes sociais com perfis falsos, único contato com a sociedade que abandonaram. São chamados de hikikomori, palavra japonesa para "ficar de lado". Na Terra do Sol Nascente já atingiram a cifra alarmante de um milhão de casos, mas é equivocado considerá-lo um fenômeno limitado apenas às fronteiras japonesas.
A reportagem é de Matteo Zorzoli, publicada por Business Insider Itália, 15-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.
"É um mal que assola todas as economias desenvolvidas - explica Marco Crepaldi, fundador do hikikomori Itália, a primeira associação nacional de informação e apoio sobre o tema. - As expectativas de interação social são uma espada de Dâmocles para todas as novas gerações do século XXI: há aqueles que conseguem suportar a pressão da competição na escola e no trabalho e aqueles que, em vez disso, largam tudo e decidem se autoexcluir".
As últimas estimativas falam de milhares de casos italianos de hikikomori, um exército de presos que pede ajuda. Um número que tende a aumentar se não conseguirmos dar ao fenômeno uma clara posição clínica e social.

Um fenômeno de contornos ainda pouco claros

Associações como a Hikikomori Itália já há anos estão fazendo todo o possível para sensibilizar a opinião pública sobre um desconforto que é muitas vezes confundido com incapacidade e falta de iniciativa das novas gerações. Um equívoco que encontrou terreno fértil no debate político, legislatura após legislatura, criando estereótipos como "bamboccioni" (adulto com comportamento infantil e mimado, ndt) , um termo cunhado em 2007 pelo então ministro da Economia, Tommaso Padoa-Schioppa, ou "jovens italianos choosy" (exigentes) da ex-ministra do trabalho, Elsa Fornero, até chegar ao limite da sigla Neet, (em português, são os chamados “nem-nem”, ndt) os jovens que não têm "nem trabalho nem estudo", que de acordo com uma pesquisa da Universidade Católica de 2017 seriam cerca de 2 milhões em todo o país.
Também do ponto de vista médico, o hikikomori sofre de uma classificação nebulosa. No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a "Bíblia" da psiquiatria, ainda está registrada como síndrome cultural japonesa: uma imprecisão que tende a subestimar a ameaça do distúrbio no resto do mundo e cria consequências perigosas.
"Muitas vezes é confundido com síndromes depressivas e, nos piores casos o jovem é carimbado com o rótulo de dependência em internet - explica Crepaldi - Um diagnóstico desse tipo geralmente leva ao afastamento forçado de qualquer dispositivo eletrônico, eliminando, dessa forma, a única fonte de comunicação com o mundo exterior para o doente: uma verdadeira condenação para um garoto hikikomori".

Como alguém se torna um hikikomori?

O ambiente escolar é um lugar vivenciado com sofrimento especial pelos hikikomoris, não surpreendentemente a maioria deles se inclina ao isolamento forçado durante seus anos finais do ciclo fundamental e durante o ensino médio. É neste período que geralmente ocorre o 'fator precipitante', que é o evento-chave que inicia o movimento gradual de afastamento dos amigos e familiares. Pode ser um episódio de bullying ou uma nota ruim na escola, por exemplo.
"Um evento inofensivo aos olhos de outras pessoas, mas contextualizado dentro de um quadro psicológico frágil e vulnerável, assume uma importância muito significativa - explica Crepaldi - É a primeira fase do hikikomori: o garoto começa a faltar dias de aula usando qualquer desculpa, abandona todos as atividades esportivas, inverte o ciclo vigília-sono e se dedica a compromissos monótonos solitários como o consumismo desenfreado das séries de TV e videogames".
É importante intervir exatamente nesse primeiro estágio do distúrbio quando se manifestam os primeiros sinais de alarme. Nessa fase, os pais e os professores desempenham um papel crucial na prevenção: investigar a fundo as motivações íntimas do desconforto e, se necessário, buscar rapidamente o apoio de um profissional externo para evitar a transição para uma fase mais crítica, quando seria necessária uma intervenção que poderia durar até anos.

Itália e Japão: duas faces da mesma moeda

É inegável que a cultura japonesa historicamente tem se caracterizado por uma série de fatores que aumentam a dimensão do fenômeno, a ponto se ser já possível se falar de duas gerações de hikikomori, a primeira desenvolvida na década de 1980. O sistema social e escolar extremamente competitivo e o papel da figura paterna muitas vezes ausente por causa de horários de trabalho extenuantes estão na base das expectativas opressivas e muitas vezes não concretizadas. Mesmo considerando as devidas proporções, mesmo na Itália as pressões sociais são muito fortes. Determinantes desde os primeiros casos de hikikomoris diagnosticados em 2007, são a diminuição dos nascimentos com o consequente aumento de filhos únicos, geralmente submetidos a pressões maiores, a crise econômica que torna muito distante o ingresso (real) no mercado de trabalho e a explosão de cultura da imagem, exacerbada pela disseminação capilar das redes sociais.
Na Itália a síndrome não afeta só os homens, como no Japão, mas inclui também um discreto número de hikikomori-mulheres, com uma proporção de 70 para 30. "Por uma questão cultural as famílias consideram, no entanto, a reclusão da filha como um problema menor - diz Crepaldi - provavelmente porque a veem como uma futura dona de casa ou esperam que um dia se case e saia de casa".
No contexto italiano, aliás, existem diferenças entre uma região e outra: os hikikomoris do norte da Itália têm, de fato, características diferentes daqueles do sul. Justamente por isso, o site Hikikomori Itália disponibiliza salas de chat regionais, onde os jovens podem discutir problemas com os seus conterrâneos que sofrem da mesma síndrome.
Existe apenas uma regra dentro do chat: quem entra não é obrigado a interagir, mas é apreciada uma breve apresentação. Aqueles que não a respeitam são "bloqueados". Para aqueles que querem contar a sua história também tem um Fórum, aberto tantos aos jovens como aos pais: um mundo paralelo, silencioso, impalpável.
Uma tela de pedidos de ajuda e de sofrimento, mas também histórias de sucesso. Como a de Luca, 25 anos:
"O dia e noite eram idênticos, eu dormia quando sentia vontade, comia quando queria. Eu perdi todos os meus amigos e a tela era um "Stargate" para outro universo. O tempo se dilatava quando eu clicava no teclado e eu nunca queria parar. Quando precisava tomar banho ficava ansioso debaixo do chuveiro para voltar logo a jogar.
Eu passei mais de dois anos jogando Wow [World of Warcraft, um jogo de estratégia, nde] em total isolamento. Eu não conseguia mais nem andar. Tudo isso aconteceu sem que minha mãe percebesse: trabalhava das 8 às 17 e eu fingia que ia à escola. Eu já não queria mais ir. Muita pressão.
O isolamento é uma batalha que no final torna-se uma cura. Crescia dentro de mim como uma onda, lentamente, até o momento em que tudo começou a me incomodar, eu detestava tudo o que eu fazia, eu não suportava mais quem eu era.
Hoje eu estou fora, eu moro no exterior e tenho uma linda namorada. Sou ou fui um hikikomori? Eu não sei, mas o que eu sei é que a força para combater esse demônio está e existe apenas dentro de você, ninguém pode ajudá-lo, na taberna de alguma montanha virtual onde você se perdeu, com a sensação de paz que envolve a sua mente. O único conselho que acho que posso deixar é: fujam do computador".

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Centro de Documentação do IAC convida-@ a ir à Feira do Livro de Lisboa conhecer a Premika

O Centro de Documentação e Informação sobre a Criança do Instituto de Apoio à Criança convida a vir conhecer a Premika, e as suas autoras, na Feira do Livro de Lisboa, no dia 27 de maio, às 15.00h.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Consequências de andar pelas redes sociais no telemóvel à noite mais graves do que se pensava

Photo by Rami Al-zayat on Unsplash


Artigo de Mariana Godinho para a Visão, em 20 de maio de 2018. 

Um estudo da Universidade de Glasgow chegou à conclusão que tudo o que interrompa o normal ritmo circadiano aumenta a probabilidade de instabilidade emocional, depressão e até bipolaridade. A partir das 22h00, esqueça o telemóvel. 

Investigadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, chegaram à conclusão de que quem fica agarrado ao telemóvel até tarde tem mais 11% de probabilidade de sofrer de bipolaridade e mais 6% de probabilidade de passar por uma depressão. 

Os participantes deste estudo, que foi o primeiro a analisar em larga escala as a interrupção do normal funcionamento do relógio biológico, também demonstraram níveis de felicidade reduzidos e, pelo contrário, e altos níveis de solidão. 

Foram estudadas mais de 91 mil pessoas entre os 37 e os 73 anos e monitorizadas durante sete dias por acelerómetros de pulso para medir o ritmo circadiano (responsável pelo relógio biológico que controla o sono e o apetite) e perceber o que o perturba. 

 À diferença dos ritmos de atividade e descanso chama-se amplitude relativa e a equipa de Glasgow concluiu que os indivíduos com menor amplitude relativa eram os que tinham maior risco de problemas de saúde mental, mesmo depois de tidos em conta fatores como a idade, sexo, estilo de vida, educação e traumas de infância. 

Daniel Smith, o principal autor do estudo, especifica, em declarações ao The Times, o uso do telemóvel até tarde e o acordar de madrugada para fazer chá como hábitos que contribuem para uma "má higiene do sono". "Mas não é apenas o que faz à noite, é o que faz durante o dia - tentar ser ativo durante o dia e passivo à noite", defende. O inverno é a altura a que Smith dá mais enfase, explicando que é tão importante "sair de casa pelo ar fresco da manhã" como "não estar no telemóvel para ter uma boa noite de sono". O investigador garante que 10 horas da noite é uma boa altura para pôr o telemóvel de lado. 

Como cada vez mais pessoas estão a viver em ambientes urbanos, o que aumenta o risco de perturbações no ritmo circadiano, Daniel Smith explica que "o próximo passo será identificar os mecanismos pelos quais as causas genéticas e ambientais da perturbação circadiana interagem para aumentar o risco individual de depressão e bipolaridade."