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terça-feira, 10 de julho de 2018

Redes sociais. “A nossa saúde mental nunca esteve tão perturbada como agora”

WoeBot



Artigo de Ana Pimentel para o Observador, em 3 de julho de 2018.


Investigadora em psicologia em Stanford, Alison Darcy fundou a app que quer ajudar quem sofre de depressão ou ansiedade. Como? Pondo as pessoas a trocar mensagens com um robô que vale 34 milhões.

Alison Darcy fazia investigação em psicologia clínica, na Universidade de Stanford, nos EUA, quando teve a ideia de lançar o Woebot, um chatbot (sistema de inteligência artificial capaz de conversar com o utilizador) que se socorre da psicologia cognitiva comportamental para ajudar quem estiver a sofrer com uma depressão, perturbações de ansiedade ou a sentir-se sozinho. O Woebot é um pequeno robô amarelo que troca mensagens bem humoradas com o utilizador, durante cerca de dez minutos. Ao Observador, a investigadora garante que o objetivo não é substituir o contacto humano, antes pelo contrário, é incentivá-lo: a “cura para a solidão” está nas pessoas. Num mundo em que ainda há “um estigma enorme” sobre a saúde mental, nunca foi tão importante falar dela, explicou Alison. Porquê? Por causa das redes sociais. “A nossa vida é extraordinariamente barulhenta, há muitas coisas a pedirem a nossa atenção a toda a hora.”
Consciente de que “as pessoas nunca estiveram tão sozinhas como agora“, lançou o Woebot primeiro dentro do Facebook Messenger, em maio de 2017, mas disponibilizou-o entretanto na Apple Store e no Google Play, de forma gratuita (mas só por enquanto). Com um investimento de oito milhões de dólares, o Woebot está avaliado em 34 milhões (29 milhões de euros), tem utilizadores em 130 países e captou a atenção de meios como Forbes, Wired, Washington Post, Bloomberg, Inc. ou Business Insider. O modelo de negócio vai passar por cobrar uma subscrição mensal depois de um período de duas semanas de utilização gratuita. Apesar de conversar com o utilizador, o Woebot não chama assistência se o utilizador estiver em perigo nem alerta nenhum outro humano. A psicóloga explica que os utilizadores estão protegidos pelo anonimato.

“Não temos profissionais de saúde mental suficientes no mundo”
Como é que teve a ideia de lançar a Woebot? Porquê uma appdestas?Fiz investigação em psicologia clínica na Universidade de Stanford durante dez anos e, antes disso, fiz um doutoramento em Dublin, onde criei um programa de terapia comportamental para pessoas que estavam muito doentes. Isso fez-me perceber que precisamos de chegar às pessoas muito mais cedo, muito antes de chegar ao ponto em que elas precisam de ser hospitalizadas devido a problemas de saúde mental.

Quando diz doentes, refere-se a que tipo de doença? À depressão?Sim. O trabalho que estava a fazer para o meu doutoramento envolvia pacientes com anorexia nervosa crónica. Eram pessoas que estavam muito, muito doentes. São provavelmente a população mais doente entre nós. E depois, nos EUA, percebemos que de momento existe uma crise muito grande no mundo. Existem muitas, muitas pessoas com necessidade de apoio a nível mental e não há pessoas suficientes para fazerem face a essas necessidades. Não temos profissionais de saúde mental suficientes no mundo. Nos EUA, se falar com pessoas mais velhas que têm um diagnóstico de problema mental, percebo que, na verdade, elas nunca estiveram frente a frente com um profissional destes. E isto acontece no mundo ocidental, onde os serviços são relativamente mais acessíveis do que em sítios como África, Índia, China onde, para milhões e milhões de pessoas, estar com um profissional de saúde mental está completamente fora de questão — simplesmente não vai acontecer.

Como explica isso?  
Acredito que mais de metade da população do mundo ainda não tem acesso a cuidados médicos básicos. E, por isso, acho que há uma grande necessidade de desenvolvermos algo que seja escalável, de uma forma muito mais vasta e acessível. Isto foi um dos pontos de partida. O outro foi o facto de, nos últimos dez anos, terem surgido apps no mercado que não são assim tão eficientes. Não é que não sejam acessíveis, mas falta-lhes dar provas de que são mesmo eficientes. Quisemos criar uma empresa que tivesse um nível mais elevado de compromisso em matéria de resultados. Acho que as pessoas começaram a ficar mais céticas, no geral. Enquanto cientista senti a responsabilidade de entrar no mundo comercial e construir algo que pudesse ser adotado pelas pessoas de forma vasta.

Continue a ler AQUI.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Como lidar com esta nova geração "dependente" da tecnologia

Photo by lifesimply.rocks on Unsplash


Artigo escrito por Clara Soares para a revista Visão, em 8 de abril de 2018.

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.


IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!


TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores

Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra... A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.