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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mãe, pai: quem é que vos disse que podiam postar isso sobre mim?

Sharenting é um termo que mistura partilha (share) e parentalidade (parenting), designa o fenómeno de os pais publicarem fotografias, vídeos e comentários dos filhos nas redes sociais, e ninguém tem dúvidas de que esses conteúdos até possam ser os mais engraçados da vida dos miúdos. Porém, querem ser eles a ter a última palavra.
 
Texto de Ana Pago publicado em DN LIfe em 24/4/2019

A sós com a filha de 14 anos, rosadas do frio, com a estância de esqui em fundo, Gwyneth Paltrow quis partilhar o momento no Instagram. “Mãe, já tínhamos falado sobre isto. Não podes publicar nada sem o meu consentimento”, zangou-se a jovem Apple Martin, incomodada com a fotografia. “Mas se nem consegues ver a tua cara!”, ripostou a atriz americana, dividida entre ter pisado o risco ao expor a filha (ainda que de óculos espelhados a cobrir-lhe o rosto) e ser descomposta em público por ela.
Crianças e adolescentes insistem cada vez mais com os pais para que não publiquem nada sobre eles sem o seu consentimento.
A blogger Catarina Beato percebe perfeitamente a irritação de Apple: “Falo pouco do meu filho adolescente por acreditar que esta idade merece todo o respeito. Se ele não gosta de exposição, quem sou eu?”, questiona a antiga jornalista de economia, autora do blogue Dias de Uma Princesa desde 2005. Por lá, fala de alimentação, viagens, peso, poupança e outros temas que exporia num café se estivesse a conversar em voz alta com uma amiga, filhos incluídos. Mas à vontade não é “à vontadinha”.
“Demorei bastante a escrever um post sobre adolescência porque queria dizer o que sinto dos medos, do cansaço, sem falar da vida do meu adolescente em particular”, recorda Catarina Beato, que hoje em dia só ainda não pergunta a opinião a Maria Luiza, de dois anos: “O Afonso, de sete, já quer ter voto na matéria e eu aceito, embora adore aparecer”, conta.
Quanto a Gonçalo, 17 anos, é muito tímido e continua a pedir-lhe que não publique nada sobre ele, algo que a mãe respeita.

Segundo os especialistas, esta é uma reação que irá ganhar força no futuro, à medida que os mais novos insistem com os adultos para não postarem à revelia. “Grande parte das crianças e adolescentes cujos pais publicaram sobre os filhos sem consentimento – fossem comentários, fotografias ou vídeos – ficaram aborrecidos com isso e pediram-lhes que os retirassem”, adianta a investigadora Cristina Ponte, responsável pelo relatório EU Kids Online Portugal de 2018, divulgado em fevereiro deste ano para ampliar o que sabemos sobre usos, riscos e segurança na internet das crianças europeias.
sharenting
“Alguns chegaram a receber comentários negativos ou ofensivos de colegas devido a conteúdos publicados pelos pais sobre eles”, alerta ainda a professora de comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Já para não falar dos amigos que publicam constantemente coisas uns sobre os outros, sem perguntarem primeiro se podem, a configurar 25% dos casos num universo de mais de 1800 respostas, em miúdos entre os 9 e os 17 anos.
Ao que parece, todos estão a começar a encaixar que o seu rasto digital começa muito antes de eles próprios se terem tornado ativos online, sem controlo naquelas fotos da mãe a mudar-lhes a fralda ou a dar-lhes banho em pequenos. E não estão satisfeitos com os adultos: 28% dizem que os pais publicaram conteúdos sem lhes perguntarem se estavam de acordo, 13% ficaram incomodados com essas partilhas e 14% pediram-lhes que os retirassem, tão melindrados com os progenitores como Apple Martin ficou com a mãe.

“Eles têm o direito a viver este espaço digital com a garantia de privacidade e de serem ouvidos nessa opção. Direito a definir como é que os outros lhes fazem referência”, reitera Cristina Ponte, ciente de que qualquer partilha online fica para sempre e nunca será vista apenas pelo círculo de pessoas mais chegadas. “Os pais devem pensar antes de publicar. E depois envolver a criança ou adolescente para saber se se importa, ou não, que o façam”, diz.
Foi o que decidiu Sónia Morais Santos, autora do blogue Cocó na Fralda e mãe de quatro: Manuel de 17 anos, Martim de 14, Madalena com nove e Mateus de quatro. “Comecei a contar as peripécias da família em 2008, um dia o meu mais velho não gostou de qualquer coisa (não me lembro o que era) e a partir daí acabou-se”, lembra a ex-jornalista. Nunca mais postou sobre os crescidos sem autorização, e nada além de uma piada ou resposta mais bem dadas. “Mesmo a Madalena já está no grupo daqueles a quem pergunto.”
Com o Mateus são histórias amorosas, não acha que seja um problema, mas os mais velhos deixaram de aparecer. “Se sucede algum episódio que me apetece partilhar, vejo primeiro com eles se se importam”, afirma a blogger, considerando que o que é da esfera íntima fica em casa, não há cá confusões. Ninguém sabe em que área está o Manuel, se são bons ou maus alunos, se saem à noite, se têm namorada ou namorado, se alguma vez beberam. «Justamente porque têm as suas vidas e não têm de as ver expostas no blogue da mãe», aprova.

Quem também aplaude são os investigadores Sara Pereira, Luís Pereira e Manuel Pinto, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Juntos escreveram o booklet Internet e redes sociais: tudo o que vem à rede é peixe? para que os internautas percebam que o que publicam pode ser lido ao minuto por um público extenso e permanece na rede mesmo depois de removido, razão por que nunca devem pôr em causa a privacidade de quem quer que seja.
Uma outra pesquisa da AVG, empresa de programas de proteção de computadores, salienta que pais, tios e avós publicam fotografias e vídeos dos seus bebés, o que faz com que 82% das crianças tenham a imagem na internet antes de completarem dois anos. Ainda mais preocupante: são os pais quem revela maior quantidade de dados pessoais dos filhos, através da partilha de conteúdos de elevada intimidade, e os ajudam a criar perfis nas redes sociais antes de terem idade para abrir conta.
O facto de as pessoas pensarem que só quem está ligado ao seu perfil tem acesso às imagens publicadas cria uma falsa sensação de segurança.
“O facto de as pessoas pensarem que só quem está ligado ao seu perfil tem acesso às imagens publicadas cria uma falsa sensação de segurança”, explica Tito de Morais, fundador do site MiúdosSegurosNa.Net para promover a segurança online dos mais novos. No limite, diz, “é útil partir do princípio que o que fazemos em privado se pode tornar público, mesmo o que não publicamos”. E então agir com bom senso: nem encher o mural de imagens das crianças, que irão apreciar ter controlo sobre a sua identidade, nem diabolizar as redes sociais, que só se tornam boas ou más dependendo do uso que fizermos delas.
De resto, esse foi sempre um cuidado que Fernanda Velez teve com o Blog da Carlota (um dos blogues portugueses de maior alcance, com um bom gosto digno de revista de interiores), que criou quando a sua mais velha tinha quatro meses (tem agora sete anos). “Estava encantada com a maternidade, com as roupas que comprava para a bebé, e comecei a partilhar o que vestia à Carlota com os links das marcas portuguesas”, conta a empreendedora. Era ela a postar imagens da filha no Instagram e as lojas a esgotarem os modelos infantis e os que ela mesma usava. Passados uns meses fazia os Mercaditos da Carlota com novidades de moda para mães e crianças, uma extensão do reconhecimento público.

“A Carminho nasceu três anos depois, no início só apareciam elas, e o que eu senti foi que de repente passou tudo a mostrar os filhos como eu nunca mostrei as minhas, em birras ou situações que as diminuíssem”, nota Fernanda, que entretanto já publica mais imagens suas do que delas. Por mais que os seguidores possam pensar que as conhecem, não veem ali mais do que a moda que existe nas suas vidas, nenhuma intimidade. “A Carlota adora aparecer, a Carminho ainda não sabe o que é ter presença online, mas o que é certo é que nunca irão ter uma foto que as envergonhe”, assegura a mãe.
Os jovens não são nem nativos digitais, nem ignorantes digitais.
E neste ponto importa acrescentar que os jovens não são nem nativos digitais, nem ignorantes digitais, destaca a investigadora em comunicação Cristina Ponte, desmistificando a ideia de que os miúdos, hoje, já nascem agarrados aos ecrãs: “Nem nascem ensinados e a saber tudo da internet e das novas tecnologias, nem são uns coitadinhos desprotegidos num ambiente que só tem riscos.”
Para a responsável do relatório EU Kids Online Portugal, muitos deles apenas desejam que os pais acompanhem mais o que fazem, pelo que existe aqui margem para se trabalhar com eles uma série de competências sociais e emocionais, que lhes permitam desenvolver melhores competências digitais. “A começar por conseguirem lidar com as críticas, positivas ou negativas, e com a frustração que daí vem. Porque isso faz parte da vida, o terem essa noção de até onde se querem expor”, remata a docente.
Na dúvida, são estas as imagens que nunca, em circunstância alguma, devem ser publicadas:

AS DE CRIANÇAS NUAS, DE FRALDA, NO BANHO.
 
Inocentes aos olhos da maioria das pessoas, podem tornar-se um prato cheio para utilizadores maldosos que as ponham a circular em redes criminosas ou façam um uso ainda mais abusivo das informações obtidas nas redes sociais.

AS DE CRIANÇAS COM UNIFORMES ESCOLARES.
 
A partir de uma farda é possível identificar a escola que a criança frequenta, por vezes até o ano. Se além disso a rede social divulgar o nome dos pais, dos menores e uma série de outros dados pessoais, não é descabido pensar que possa haver problemas mais cedo ou mais tarde.

AS QUE PODEM CAUSAR CONSTRANGIMENTO NO FUTURO.
 
Por muito engraçada que uma foto possa parecer na altura em que é tirada, os pais devem lembrar-se de que as suas crianças não gostarão de se ver expostas ao ridículo. Imagens embaraçosas à solta na rede podem vir a ser usadas em situações de bullying ou outras igualmente danosas.

AS DAS CRIANÇAS DOS OUTROS.
 
Tal como qualquer pai tem o direito de exigir que uma foto do filho seja retirada quando postada sem autorização, deve lembrar-se de perguntar aos outros pais se pode publicar imagens em que as crianças deles apareçam, como aquelas que são habitualmente tiradas em passeios de turma ou festas de aniversário.

AS DE CRIANÇAS COM OBJETOS DE VALOR.
 
À partida, os amigos ficarão contentes com o sucesso dos pais e a alegria dos mais novos, mas para quê chamar a atenção para os bens materiais da família? Ou fazer o seu filho correr riscos desnecessários apenas porque ganhou um iPad topo de gama de presente e publicou uma foto a exibi-lo?

AS QUE PERMITEM IDENTIFICAR ONDE FORAM TIRADAS.
 
Os smartphones e algumas câmaras vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público nas redes sociais o local onde cada foto é tirada. Desative-o para não correr o risco de as fotografias darem a terceiros informações que só lhe interessam a si.

AS DE ALTA RESOLUÇÃO.
 
Uma vez que perdemos o controlo das imagens quando as colocamos na internet, é preferível partilhar com os amigos as de baixa resolução, menos fáceis de editar, manipular e utilizar.

AS QUE DÃO PISTAS DE ONDE MORA. 
 
Os miúdos estão mais giros a cada dia que passa, fizeram uma graça que queremos partilhar e, sem querer, acabamos a mostrar nas imagens uma loja conhecida, aqueles prédios de cor tão particular e outros pontos de referência do lugar onde moramos. Por muito pouco paranoica que uma pessoa seja, há certas coisas que é preferível manter na esfera privada.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Crianças e jovens já pedem aos pais para retirar dados pessoais da Net

Inquérito - Rede europeia "EU Kids Online"abrange 33 países
Crianças e jovens mostram-se críticos em relação à partilha online de conteúdos pessoais sem o seu consentimento, segundo um inquérito sobre o uso da internet.
Notícia publicada no JN em 23 de fevereiro de 2019
Foto : DR
 Segundo o relatório "EU Kids Online Portugal" de 2018, divulgado este sábado, que analisa os "usos, competências, riscos e mediações da internet reportados por crianças e jovens", há uma atitude crítica proativa dos mais novos em relação ao"sharenting", a partilha de conteúdos pessoais na internet por pais, amigos e até professores sem consentimento dos visados.


Num universo de mais de 1800 respostas de crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos sobre este tema, 28% mencionaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem se estavam de acordo.

De acordo com o relatório, "14% pediram aos pais para retirar esses conteúdos", sendo que essa situação "é referida por quase um quinto das raparigas entre os 13 e os 17 anos".

O documento aponta ainda que 13% dos inquiridos reportaram ficar incomodados com a partilha sem consentimento de informação pessoal, sendo que essa partilha partiu de professores em 7% dos casos.

Segundo o relatório, "6% registam ter recebido mensagens negativas ou ofensivas por causa de conteúdos sobre si publicados pelos pais", sendo que "os rapazes reportam praticamente o dobro do que as raparigas"
.
"A partilha de conteúdos por parte de amigos sem que o próprio dê consentimento é uma prática que também caracteriza a relação de amizade: 25% assinalam que os amigos publicaram coisas sobre si sem lhes perguntarem primeiro se estavam de acordo, com diferenças significativas por idade e género. Essa prática é mais referida nos 13-17 anos e mais por raparigas (36%) do que por rapazes (28%)", acrescenta-se.

Em termos globais, a percentagem passou de 7% dos inquiridos em 2010, 10% em 2014 para 23% em 2018. Mas é na faixa etária entre os 9 e os 10 anos que o crescimento é mais expressivo: dos 2% em 2010 para os 3% 2014 e daí para os 25% em 2018.O documento revela igualmente que em relação a estudos anteriores - o inquérito já tinha tido edições em 2010 e 2014 - mais do que duplicou a percentagem de crianças e jovens se afirmam ter sentido perturbados com a exposição a conteúdos negativos.

O inquérito procurou aferir a sensação de dano colocando uma questão genérica sobre se no último ano tinha acontecido alguma coisa online que tivesse incomodado de alguma maneira, provocando medo ou desconforto. Essa pergunta antecedeu outras questões sobre "bullying" (violência entre pares), "sexting" (envio de mensagens de cariz sexual), pornografia e outros riscos, explica-se no relatório.

"23% das crianças e jovens portugueses de 9-17 anos reportaram ter tido situações que incomodaram na internet no último ano", refere o relatório.

"Cerca de três quartos dos que experienciaram danos indicam que essas situações negativas aconteceram algumas vezes no último ano. Contudo, 23% dos mais novos (9-10 anos) apontam ter tido situações que os incomodaram todas as semanas ou mais", adianta o documento.

A rede de apoio preferencial para falar sobre as experiências negativas online são os amigos (42%) e os pais (33%). Irmãos e irmãs são opção para 13% dos casos e apenas 5% reportam ter falado com professores, sendo que 22% não falou com ninguém.

A solução para lidar com o incómodo causado pela exposição a conteúdos negativos passou por ações proativas, como bloquear o contacto da pessoa na origem do incómodo, ou passivas, como simplesmente esperar que o problema desaparecesse por si, ambas opção em 33% dos casos reportados.

"No seu conjunto, estes valores mais do que duplicaram em relação a 2010 e 2014", constata-se, precisando ainda o relatório que "para 29% dos inquiridos o 'bullying' ocorre com bastante ou muita frequência, tanto 'online' como 'offline'", e que "o 'bullying' através de meios tecnológicos predomina sobre o 'bullying' cara a cara".Sobre "bullying", o relatório indica que o fenómeno está em crescimento: "em 2018, 24% das crianças e jovens portugueses reportaram terem sido vítimas de 'bullying' 'offline' e 'online' no último ano".

"Uma em cada seis crianças e jovens que experienciaram 'ciberbullying' (16%) teve de fazer coisas que não queria fazer", adianta o documento, que acrescenta dados sobre a perspetiva do agressor.

"Cerca de 17% reportam ter tido comportamentos de 'bullying' para com rapazes e raparigas no último ano. A percentagem cresce com a idade e é mais elevada entre rapazes do que entre raparigas", lê-se no documento.

A rede europeia "EU Kids Online", que abrange 33 países e se dedica a estudar a segurança na internet para crianças e jovens, é a responsável pelo estudo aplicado em vários países europeus, incluindo Portugal, onde a pesquisa foi coordenada pela professora e investigadora da Universidade Nova de Lisboa Cristina Ponte, que contou com o apoio logístico da Direção-Geral de Educação.

"Aplicado em escolas públicas e privadas, [o inquérito] foi respondido por uma amostra nacional (incluindo Madeira e Açores) composta por 1.974 rapazes e raparigas de 9 a 17 anos, em regime de autopreenchimento em salas equipadas com meios digitais (preenchimento assistido por computador, CAPI)", explica a nota metodológica, referindo que as questões obrigatórias do inquérito foram aplicadas a toda a amostra, mas as que constituíam os dois módulos opcionais inquiridos em Portugal - Cidadania Digital e Internet das Coisas - apenas foram respondidas pelos maiores de 11 anos.

"As 1.974 crianças e jovens (9-17 anos) que responderam a este questionário distribuem-se igualmente por género e o grupo etário dos 13-17 anos constitui 62% da amostra", refere o relatório sobre o inquérito aplicado no primeiro semestre de 2018 nas escolas.