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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

As crianças tornaram-se fornecedoras de imagens para pornografia infantil — sem saberem. A nova tendência preocupa a PJ


DIOGO VENTURA/OBSERVADOR


Notícia de Carolina Branco, publicada no Observador, em 3 de janeiro de 2019.

É uma realidade nova e a que mais preocupa a PJ. Sem consciência dos perigos e com fácil acesso às redes sociais, as crianças partilham cada vez mais imagens íntimas, que acabam na mão de criminosos.

Uma criança começa a chorar ao fundo da sala e o alarme soa para a Polícia Judiciária (PJ). Aconteceu já várias vezes — mais do que o desejável — durante as ações de prevenção que os inspetores da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e a Criminalidade Tecnológica (UNC3T) têm vindo a realizar em escolas. O objetivo é alertar para os vários perigos da internet, mas acabam — também mais vezes do que o desejável — por encontrar vítimas entre as crianças que assistem às ações.

São facilmente detetadas. Não conseguem esconder o desespero, choram e, muitas vezes, abandonam as salas. Identificam-se com o que estão a ouvir e assustam-se com a realidade que os inspetores lhes expõem: que as imagens íntimas que partilham com amigos ou namorados, ainda que em mensagens privadas, podem acabar em circuitos de pornografia infantil; que os utilizadores com quem falam online podem ser criminosos a fazerem-se passar por crianças; que os podem levar a pensar que têm uma relação amorosa, manipulando-os e levando-os a partilhar imagens íntimas; que os podem ameaçar, usando os dados — escola, morada, familiares — que partilham nas redes sociais; que, já na posse das imagens, podem chantageá-los, pedindo-lhes dinheiro sob pena de as divulgarem. E não é coisa de filme, distante ou rara. “Muitas vezes, [as crianças] têm a noção que já o fizeram e questionam-se: ‘Será que esta imagem já foi parar à mão de alguém?'”, explica ao Observador Manuel Coutinho, secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança — que também realiza ações de prevenção, muitas vezes em colaboração com a PJ.

É uma nova tendência, que vem até indicada no Internet Organised Crime Threat Assessment (IOCTA) 2018 — um relatório da Europol que reporta as tendências atuais e futuras do cibercrime, com base na análise de informação dos vários países. O documento aponta mesmo a autoprodução de imagens como uma das razões para o aumento de conteúdos de pornografia infantil detetados. “Nove países membros da União Europeia (UE) sinalizaram um aumento na quantidade de conteúdos autoproduzidos na posse dos suspeitos, com algumas agências policiais a reportar a existência de uma grande quantidade desses conteúdos em sites de partilha de imagens”, lê-se no IOCTA deste ano.

É também a realidade que, neste momento, mais preocupa a PJ, no que diz respeito ao crime de pornografia infantil e que está na origem de várias investigações agora em curso: as crianças tornaram-se produtoras — e fornecedoras — deste tipo de imagens, sem se aperceberem. “A autoprodução de imagens é uma realidade que preocupa muito porque os menores, facilmente, seja entre pares, seja porque estão enganados em relação ao interlocutor, facilmente cedem. E há pouco controlo parental“, diz Pedro Vicente, coordenador da UNC3T da Polícia Judiciária, ao Observador. Mas como é que essas imagens acabam por ir parar a circuitos de pornografia de menores?


Da pornografia de vingança ao grooming. Uma vez na internet, para sempre na internet

A grande mudança chegou não propriamente com as redes sociais, mas com os dispositivos móveis. “Quando surgiram as redes sociais — a primeira com grande dimensão em Portugal foi o hi5 –, as pessoas não punham fotografias porque também não tinham como as tirar facilmente. Hoje em dia, tiramos uma fotografia e, 30 segundos depois, ela está nas redes sociais”, explica ao Observador o inspetor da PJ Ricardo Vieira, que acredita que “os dispositivos [telemóveis] e a internet no bolso” foram os grandes impulsionadores desta nova tendência.

O fácil acesso às redes sociais e o facto de não haver um contacto direto com quem está do outro lado do ecrã desinibem os menores de transmitirem imagens suas. E fazem-no entre eles, cada vez mais — uma das formas como estas imagens chegam aos circuitos de pornografia de menores. Convencidos de que têm um relacionamento, ainda que muitas vezes virtual, partilham fotografias ou vídeos em que aparecem despidos. Mas quando esse relacionamento acaba — ou mesmo quando não acaba –, a troca de imagens entre menores pode culminar numa situação de pornografia de vingança — com um deles a partilhar a fotografia via redes sociais.

Depois, essa partilha torna-se uma bola de neve, que pode acabar em fóruns de pornografia infantil. Embora essas imagens sejam, na maioria das vezes, partilhadas voluntariamente, e embora possam ser distribuídas sem que o objetivo seja introduzi-las nesses fóruns, as mesmas podem acabar nas mãos de criminosos. A frase é um cliché, mas é realmente verdade: uma vez na internet, para sempre na internet. E, partilha atrás de partilha, a probabilidade de uma imagem atingir a um grande número de pessoas é grande. “A partir do momento em que é divulgada, é praticamente impossível de recolhê-la“, explica o coordenador Pedro Vicente, acrescentando: “O que nos preocupa mais é a distribuição, porque tem esta capacidade de divulgar por um núcleo de pessoas desconhecidas, com capacidade de transformar as imagens em prémios.”

E há quem ande à caça desses prémios. Noutros casos, quem está do outro lado do chat pode não ser quem os menores julgam. “Muitas vezes, são criminosos que se fazem passar por pessoas da mesma idade, de sexo oposto ou do mesmo sexo, que usam a engenharia social — conhecem bem os assuntos de interesse dos menores — para convencer as crianças a partilharem imagens“, explica o coordenador Pedro Vicente.

Caso a manipulação não funcione, há outros métodos: ameaçar os menores com a informação que os próprios disponibilizam nas redes sociais. Não é preciso muito. A escola onde estudam, a cidade onde vivem ou quem são os seus familiares são elementos suficientes para intimidar uma criança. Por exemplo: “Sei onde estudas e onde vives. Se não enviares imagens, vou à tua procura e faço mal ao teu irmão mais novo“. Uma vez na posse de uma imagem que seja, os interlocutores usam-na como forma de obter mais conteúdos ou pedir dinheiro, sob pena de divulgarem a imagem que já têm consigo.

De acordo com o IOCTA 2018, mais de metade dos países membros da UE reportaram um aumento do número de casos de coação e extorsão sexual de menores para obter novos conteúdos de pornografia infantil autoproduzidos. Daí que, no verão de 2017, a Europol tenha lançado a campanha #SayNo, com diversos materiais e vídeos — disponibilizados em várias línguas — que expõem a forma de atuação dos atacantes e explicam às vítimas como podem pedir ajuda.

Continue a ler este artigo AQUI.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

What is Google doing for my child's sexual education?



The easy access to pornographic content offered by search engines to anyone, including young children, is one the main concerns of parents nowadays. Teresa Sofia Castro, post-doctoral researcher in Educational Technology at the New University of Lisbon, Portugal, recounts her research interviews with children on the topic, and suggests some guidelines for parents.
Anna [aged 11]: Write down ‘69' on the internet.
Researcher: Why? Have you already googled it before?
Anna: Yeah.
Laura [aged 10]: Me too. And I regret it. I thought it was a good thing, but it isn't.
Researcher: Why did you do it?
Laura: Because Anna told me to Google it to see what it was.
Anna: She was asking what it was. I didn't want to explain to her and so I told her to go look it up on the internet.
[Laura is searching on the internet using Anna's smartphone]
Anna: You have to click on images. Give me my smartphone. Now, that is recorded in my internet history.
Laura: This is not my phone.
Researcher: Anna, are you cleaning your internet history?
Anna: Yeah. I'd better. My father usually checks my smartphone.

I vividly remember, when I was around nine years old, turning to my mother, who was cooking dinner, and asking her: "What does having sex mean?". Besides almost cutting her finger off, I've retained the memory of her gazing at me with a mix of panic and fear. I was a pre-internet child, so I could not easily look for answers on Google, like Anna and Laura did. But, because my mother's explanations did not quite satisfy my curiosity, and because I felt like she was not telling me the whole story, I searched for satisfactory answers in physical books, like encyclopedias.

Thirty years later, when children run to adults for answers (about sex or any other subject) and their explanations do not resonate with them, they can easily and rapidly look for evidence on the internet. The internet is a very powerful and wonderful tool, but it is not perfect. In a couple of minutes or less, you can find just about anything, as the introducing conversation, taped during a focus group with 10-12-year-old children, depicts.

Sexuality is a key dimension in the distinction between children and adults' worlds. This distinction became very blurred with technological advances and the growth of the pornographic industry, now providing children with a much easier, wider and freer access to sexually explicit material than ever before. Despite being one of parents' top concerns, and one of the topics that tend to dominate the public discourse, children are effectively and actively accessing the internet on a daily basis and encountering material online that is intended for adults – pornography – as a result of peer pressure, curiosity or accidentally while just randomly browsing.

This dialogue above realistically illustrates what children talked about in those meetings. The researcher-participant relationship had evolved to the point where the children felt comfortable to speak their minds and share their thoughts without fear of being judged. On a personal level, this was an extraordinary learning opportunity to get a closer standpoint and participate in the complexities of their digitized daily lives, and to be counted as an adult they came to for advice.
Besides pornography and sex, children talked about everyday things and more serious matters involving: (cyber)bullying, abusive behaviours like taking one's picture and posting it without permission, the spread of rumours, pranks, fear of being traced or videotaped without their knowledge, hacking and stealing passwords, and talking with strangers.

When I share snippets of the children's narratives in talks with parents and technicians, I can easily identify who is who by recognizing my mother's look in the first ones' eyes, and getting a nod from the second. Regarding children and technology, adults experience contradictory feelings partly because they lack reference points from their own childhood, but mostly because it threatens the romantic idea of childhood. Thus, their first reaction and emotional response is to demonize it or to restrict access, which prejudices the adult-child relationship, possibly leading to a lack of trust, conflicts and tensions.

Experience from doing research with children (from early ages) demonstrates that when kids feel that their digital autonomy is threatened, they prove to be very resourceful in finding ways around parental interventions. To make matters more complicated, as the use of technology rapidly becomes more portable, private and connected, parents feel less in control and desperately look for easy-to-use solutions to alleviate their anxieties and keep their children safe from these and other "corrupting" contents.

Going back to the dialogue depicted above, children's accounts also reveal the contradictions of a society that gives children an unprecedented autonomy, much enhanced by portable devices, and on the other hand, expects them to be a kind of "bibelot child", close to the eighteenth century representation of the child as pure, innocent and spiritual.

Although research is not completely conclusive that pornography is harming children's development, it is, however, important for parents to inform themselves about what kind of content children are browsing online. For instance, I can tell for sure that if your child is led by natural curiosity to write down the keyword "sexo" (sex, in Portuguese) on the internet, Google presents in the first five results pornographic video-sharing websites with free and easy access to categorised lists of contents, including child pornography, in the format of photos, video clips, streaming media, and live webcam.

Parents influence their children's sexual choices by showing that they care about the issue and their sexual wellbeing. Thus, it may be worthwhile for parents to educate themselves about pornography to build a pedagogical and positive dialogue with the child, fostering a critical and healthy perspective about sexuality.

Find out more about the work of the Portuguese Safer Internet Centre (SIC), including its awareness raising, helpline, hotline and youth participation services.